Pedro Ferreira Esteves
Pedro Ferreira Esteves 09 de abril de 2012 às 23:30

O capitalismo popular morreu

Já estava meio adoentado, depois do trauma provocado por algumas das últimas entradas em bolsa – EDP Renováveis e Martifer. Mas a mais recente epidemia de negócios fechados por grandes accionistas em empresas de capital aberto não deram qualquer hipótese: o capitalismo popular, enquanto filosofia de vida na economia, está morto em Portugal.
Já estava meio adoentado, depois do trauma provocado por algumas das últimas entradas em bolsa – EDP Renováveis e Martifer. Mas a mais recente epidemia de negócios fechados por grandes accionistas em empresas de capital aberto não deram qualquer hipótese: o capitalismo popular, enquanto filosofia de vida na economia, está morto em Portugal.

São lendárias já as histórias das primeiras privatizações. Basta uma consulta aos jornais do início da década de 90 para perceber que os portugueses adoravam brincar ao Gordon Gekko. Portugal estava, nessa época, no sítio certo, à hora certa. O capitalismo popular estava glorificado em países desenvolvidos e a acelerada abertura da economia portuguesa era terreno fértil para emoções (e lucros) fortes.

Muitos milhões de contos depois, eis-nos chegados a uma época diferente. Mais sombria. Onde os accionistas controladores de uma empresa lançam uma OPA a um preço praticamente simbólico e, para poupar dinheiro, ainda anulam uma proposta de dividendos da própria gestão (onde mandam).

Esta operação da Brisa – uma das empresas bandeira do capitalismo popular português – é um atentado à participação dos seus pequenos accionistas, que investiram com base num pressuposto que lhes foi negado pela própria gestão (que, recorde-se, elegeram...).

A passividade do regulador perante o que se passou na Brisa também diz muito da saúde do capitalismo popular. A CMVM assiste a isto de forma serena e distante. E ninguém percebe porquê.

Já o caso da Cimpor – OPA tão barata que a Caixa nem pestanejou – e da Galp – parassocial atrás de parassocial, sempre à revelia do mercado –, são apenas exemplos de como os mais poderosos são mais fortes que os mais fracos. Uma evidência da própria vida.

Mas nada se compara com o papel do próprio Estado, nas privatizações da EDP e REN. A necessidade de fazer muito dinheiro (que se evaporará em desvios, derrapagens, buracos, etc.) esmagou tudo e todos. Sobretudo os mais pequenos, que com as limitações de voto nas duas empresas – à medida dos compradores – não podem beneficiar da arte de negociação do Governo na venda de empresas a chineses.

Depois desta verdadeira "carga policial" nos pequenos accionistas, o Governo terá grandes dificuldades em promover o mercado de capitais como uma solução para a poupança das famílias. Ou como uma ferramenta de desenvolvimento económico, de maior transparência na gestão, de maior democratização da produção de riqueza. Mas este Governo também não parece muito interessado nisso.


*Editor de Empresas
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