João Quadros
João Quadros 25 de julho de 2014 às 09:39

O charco do mexilhão

A SIC quer adaptar para Portugal o programa "Lago dos Tubarões - Shark Tank", que está em exibição na SIC Radical.

 

A SIC quer adaptar para Portugal o programa "Lago dos Tubarões - Shark Tank", que está em exibição na SIC Radical. A versão original do programa gira em torno de cinco milionários que ouvem propostas de negócio, de empreendedores e inventores que precisam de investimento, e que, caso reconheçam interesse, aplicam o seu próprio dinheiro mediante uma parte do negócio. Ou seja, a SIC precisa de arranjar milionários portugueses divertidos e dispostos a investir, o que logo à partida é uma contradição.


Um Shark Tank em Portugal parece-me uma ideia absurda. Nos EUA, o Shark Tank é composto por pessoas que construíram a fortuna do nada, cá não temos disso. Quer dizer, temos, mas são velhos que demoraram uma vida e já estão quase falidos (Sousa Cintra), ou, em alternativa, pessoas que ficaram ricas num instante, um dos expoentes máximos é o Dias Loureiro. No Portugal actual, temos poucas pessoas que construíram a fortuna do nada, mas muitas que do nada fizeram uma fortuna.


No nosso país, os verdadeiros sharks são os facilitadores. Não interessa teres as melhores ideias, interessa teres os melhores almoços. O programa ideal é um Master Chef Shark Tank com Vara, Arnaut e Relvas. O tubarões do Shark Tank são sereias lindas e fofas se comparados com as orcas da maçonaria.


Quando tentamos imaginar três pessoas para o lugar dos milionários, investidores, o primeiro nome que vem à cabeça é Joe Berardo. Mas Joe Berardo é melhor a vender do que a comprar, é milionário mas para negativos e teria de ter legendas como a versão que passa na SIC Radical. Não resultava.


Confesso que parte do meu negativismo se deve a uma certa irritação, que se apodera de mim, quando pressinto que vem lá mais uma homilia de empreendedorismo.


Actualmente, tenho horror ao empreendedorismo. Se eu pudesse ter um tapete persa por cada pessoa que me disse "tenho um projecto", alcatifava Andorra. Só fiz uma empresa uma vez e foi a pior ideia da minha vida, levei anos para me livrar daquilo! Começar é fácil - se não tivermos vergonha e usarmos os nomes que nos sugere a Empresa na Hora - para acabar é danado. É pior que tentar sair do Opus Dei ou do Facebook; enviam-nos cartas das finanças 20 anos depois.


Estou bastante farto da excitação do empreendedorismo. Empreendedores sempre houve, só não se falava tanto porque o bom empreendedor fazia pouco barulho, porque o pouco barulho era a alma do negócio. Seja como for, desejo boa sorte aos concorrentes. Espero que, pelo menos, tenham tanto sucesso como os concursos para nova estrela de música portuguesa, e que arranjem emprego num karaoke.

 

 

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Meia dúzia de sardinhas

 

 1  CPLP: Seguro diz ser positivo se adesão contribuir para abolição da pena de morte - por ferrinhos.


 2  BES dá instruções aos trabalhadores sobre como lidar com receios dos clientes - chapada na cara, é o que se faz em casos de pânico. Ou então, mãos nos ouvidos e: "lalalallalallalalal, não oiço nada, não estou a ouvir nada, lalallalalalal".


 3  Paulo Portas fala de um "IRS amigo da família" desde que não vá lá a casa jantar, que já lá tenho o IVA.


 4  Separatistas entregaram caixas negras - separatistas deram as duas caixas negras e uma de Mon Chéri, e desculpem qualquer coisinha.


 5  Cavaco diz que portugueses podem confiar no BES - isto que o Cavaco fez não pode ser considerado publicidade? "As pessoas podem confiar nos Donuts. Podem ficar descansados que eles continuam leves e fofos". No fundo, Cavaco disse para ficarmos descansados, aconteça o que acontecer, o BES vai para o panteão.


 6  Guiné Equatorial é o novo membro da CPLP - A CPLP deixou de apostar na formação. Quanto mais depressa abandonarmos a CPLP, melhor: dizemos que não percebemos o que eles dizem, e adeus.

 

 

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