Fernando  Sobral
Fernando Sobral 18 de fevereiro de 2018 às 20:30

O comboio dos torresmos

Há dias, em entrevista ao ABC, António Costa fechou as portas da carruagem: "A alta velocidade é um tema tabu na política portuguesa e vai sê-lo por muito tempo." Sobre o novo aeroporto, o tabu é idêntico.

Temas que têm fornecido munições para um exercício diletante de fogo cruzado entre os partidos políticos. Assim, sem TGV e sem novo aeroporto, vamos esperando por uma inevitabilidade: que os pendulares entre Lisboa e Porto deixem de funcionar porque já não há peças sobressalentes para fingir que aqueles comboios fora de prazo continuam saudáveis e que na Portela já não consigam aterrar mais aviões no período normal de aterragens. Portugal é assim: nada muda e nada mudará. Já foi assim quando se tentou implementar o caminho-de-ferro em terras lusas. Almeida Garrett queria antes estradas, o Conde do Lavradio achava que era demasiado caro e um jornal da época (meados do século XIX) jurava que  "quem não viajasse à janela dos comboios morreria abafado e que se viajasse mais de meia hora ficaria em estado sonâmbulo". O que não faltam são tabus e assombrações para só se tomarem decisões tardias ou idiotas.

 

Se pensarmos bem, um dos piores tabus criados foi a junção em 2015 da REFER e da EP-Estradas de Portugal, para criar as Infraestruturas de Portugal. A lógica era a poupança e os "benefícios para o contribuinte". Depois de anos de destruição de linhas férreas, que hoje poderiam ser rentabilizadas em termos turísticos, de alienação de património, de abandono de estações que eram ex-líbris de arquitectura e de tantos outros atropelos, optou-se por uma solução de integração pacóvia que só serviu para arranjar dinheiro para o túnel do Marão. Nada que surpreenda: há uma estratégia de rede pública de transportes para o país? Se existe, assemelha-se a uma comédia de horrores. Continuamos a viajar ao ritmo do velho comboio dos torresmos, que para em todos os apeadeiros. Aqueles geridos pelos partidos que se alternam no poder, é claro.

 

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