Celso  Filipe
Celso Filipe 19 de janeiro de 2017 às 00:01

O ego de Trump ajuda a Europa

Donald Trump, no meio de toda a sua comunicação desenfreada, que passa por disparar comentários avulsos sobre os mais diversos temas, pode involuntariamente ter dado uma grande ajuda à União Europeia.
Trump prognosticou que depois do Reino Unido mais países vão sair da UE e que esta dificilmente sobreviverá. Angela Merkel respondeu-lhe na volta do correio, declarando:" penso que nós, europeus, temos o nosso destino nas nossas próprias mãos".

A soberba de Trump, que fere o orgulho do Velho Continente e a auto-estima colectiva, poderá tornar-se no elemento central para uma reconstrução da UE, como resposta a um adversário inesperado, os Estados Unidos. Nada melhor para juntar as tropas europeias, que até agora têm marchado desalinhadas, do que um inimigo externo, um papel que aparentemente Trump está disposto a desempenhar.

Nesta medida, a desvalorização da Europa é um erro estratégico do futuro Presidente dos EUA e, em última análise, com o passar do tempo, até ajudará como antídoto para combater o vírus das extremas-direitas europeias, na medida em que o prazo de validade dos populismos é limitado, porque só gere o curto prazo

A partir de um cenário de confronto, os europeus sabem que têm mais vantagens se comprarem esta guerra em conjunto do que isoladamente, e poderão também agir de forma concertada na construção de uma alternativa económica ao proteccionismo que está a ser desenhado pelo futuro líder da administração norte-americana.

Com Trump no poder é garantido que existirá um conflito ideológico entre os dois blocos, EUA e UE – de um lado o nacionalismo político e económico, do outro, o denominado projecto europeu, politicamente federalista e economicamente aberto. Teoricamente, o cenário que se está a desenhar é o de uma aproximação entre os EUA e a Rússia, enquanto a UE e a China entrarão numa trajectória ainda maior de convergência. Partindo desta perspectiva é relativamente consensual concluir que uma aliança EUA/Rússia é plástica e encerra mais riscos do que uma cooperação entre a UE e a China.

Trump pensa, mal, que a América consegue viver sozinha e alimenta-se deste logro para construir uma estratégia que irá conduzir a uma nova desordem mundial. E esta é uma circunstância que obriga a Europa e os seus políticos a serem mais fortes e unidos do que nunca. A alternativa é um mundo de Trumps e isso é aterrador. 

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