Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 18 de março de 2013 às 00:01

O esplendor da teoria da espiral recessiva

Infelizmente, por fim, todos parecem rendidos. A teoria da espiral recessiva conquistou quase todas as almas. A política de austeridade que os poderes públicos pareciam dispostos a conduzir com firmeza está cada vez mais em risco e é atacada com eficácia por todos os lados. A diabolização da austeridade é francamente assumida por muitos de quem se esperavam avaliações mais contidas e rigorosas.

As consequências deste sucesso tão esplendoroso são trágicas: cometer-se-ão os mesmos erros do passado, prolongar-se-á desnecessariamente a recessão, produzindo-se resultados contrários aos que se apregoam. 


Ao contrário do que a popular mas errónea teoria pretende, o aprofundamento da austeridade - no tempo e na intensidade - e a flexibilização dos mercados (trabalho, bens e serviços, sector financeiro incluído) são as verdadeiras condições para a saída da crise. Ensina-nos assim a boa teoria económica e confirma-o igualmente, com uma evidência cristalina, a experiências de política económica dos últimos 5 anos nos países, em crise aguda, da periferia do euro.

Olhe-se para a tabela anexa onde pretendo ilustrar a evidência da superioridade dos resultados da política irlandesa bem como os principais factores que a sustentam.

Sobre os resultados fiquemos apenas pelo indicador que económica e socialmente mais devemos cuidar: o desemprego. Após um período de subida continuada, o início do ano de 2012 conheceu um pico e o início da viragem. A Irlanda é o único país onde se estabilizou, desde o início de 2012, o desemprego. A taxa de desemprego passou de 15,1% em Janeiro e Fevereiro de 2012 (período de pico) para 14,7% em Janeiro e Fevereiro do corrente ano. Nenhum outro país conseguiu até agora tal proeza - nem se mostra próximo de o conseguir.

Tal deveu-se a menor austeridade como requer a gritaria entre nós dominante? Não - os valores sobre o consumo que apresento indicam o contrário: nenhum país levou tão longe a política de austeridade. A redução do consumo registou valores não vistos em qualquer outro país.

A austeridade foi acompanhada pela melhoria da flexibilidade nos mercados, permitindo a adaptação automática e rápida dos preços e salários e a realocação de recursos mal aplicados para sectores mais produtivos. Ilustro esta performance na última coluna da tabela que nos mostra como os preços reagiram para se ajustar à nova realidade e deram um impulso essencial à competitividade da produção irlandesa.

A economia irlandesa já era antes da crise mais flexível do que a dos seus parceiros de infortúnio, mas, ainda assim, aproveitou a crise para dar um novo impulso melhorando-a substancialmente.

Tanto a política de austeridade como a de flexibilização dos mercados foram conduzidas de mote próprio não dependentes das exigências da troika. Essas políticas precederam a troika no tempo e foram além do proposto pelos credores. Os parceiros da Irlanda, coitados, só iniciaram a mudança com a troika, por pressão desta e não perdem oportunidade para se tentarem livrar da austeridade e das exigências que lhe são sugeridas.

O colapso da política de austeridade e das reformas tendentes a conferir flexibilidade à economia tem consequências conhecidas e previsíveis. Algumas são já visíveis a olho nu: regresso aos estímulos das obras públicas e construção, do crédito abundante, das políticas voluntaristas ou "activas" onde os poderes públicos aparecem como os principais actores.

A impaciência e a falta de estudo, por detrás da teoria da espiral recessiva, estão a produzir uma situação de grande perigo.

O alívio da austeridade irá, na verdade, fazer demorar a retoma e impedir que se inicie, a seu tempo, um verdadeiro período de crescimento sustentado.

De novo, por favor, olhem para a lição irlandesa.

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Economista e professor do ISEG

majesus@iseg.utl.pt

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