Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 14 de junho de 2018 às 21:50

O (falso) drama da perda de influência em Angola 

Dizer que França ou Espanha estão a ocupar o vazio deixado pelo esfriamento da relação com Portugal – discurso que é sempre uma crítica ao escrutínio judicial e mediático sobre a elite angolana em Portugal – é contar menos de metade da história.

Sente-se por aqui uma corrente de ar de receio - será também ciúme? - sempre que Angola parece preterir Portugal por outro país dito ocidental. Nos media vão surgindo pequenos reflexos deste receio, como quando uma repórter da RTP notou há dias que o Presidente angolano, de visita a França, não disse uma palavra sobre Portugal. Na política idem, como se viu pela rápida reacção celebrativa do Presidente da República quando a justiça portuguesa aceitou o envio para Luanda do caso que envolve Manuel Vicente.

 

Nos últimos meses, este medo de perdermos influência em Angola foi ampliado pelo cruzamento de dois factores. O primeiro foi a tensão diplomática gerada pelo caso de Manuel Vicente. O segundo é o esforço de vários países europeus em expandirem a sua presença em Angola, o que cai que nem uma luva no desejo angolano de diversificar a quantidade (e a qualidade) das suas fontes de investimento estrangeiro e dos seus clientes externos. Se o primeiro se revelou conjuntural, pelo menos até ao próximo caso judicial que envolva alguém no topo da elite angolana, já o segundo é estrutural - e, apesar de poder trazer mais concorrência no imediato para os interesses portugueses em Angola, não deveria ser motivo para receio.

 

O interesse soberano de Angola passa pelo aumento do investimento externo, de preferência de um tipo de investimento que imponha algumas condições de transparência, puxando pela economia e pela melhoria institucional do país. Parece que é por aí que João Lourenço quer ir. Portugal não está em condições de assegurar esses objectivos, seja porque não tem capital para isso, seja porque se habituou a não fazer quaisquer perguntas que desafiem o "status quo" em Luanda. Dizer que países como França ou Espanha estão a ocupar o vazio deixado pelo esfriamento da relação com Portugal - um tipo de discurso que é sempre uma crítica ao normal escrutínio judicial e mediático sobre as acções da elite angolana em Portugal - é, por isso, contar menos de metade da história.

 

Angola está no fundo dos "rankings" mundiais de transparência e ambiente de negócios. Isso não vai mudar radicalmente em pouco tempo. Mas se a estabilização da economia e as reformas internas conseguirem de facto desenvolver o país e torná-lo menos corrupto, todos ganham com isso, a começar pelos angolanos - e, a seguir, pelos estrangeiros com quem os angolanos têm uma relação mais profunda. Os empresários, os gestores e os técnicos portugueses terão mais a ganhar numa economia angolana maior, estável e menos corrupta. O jogo da presença internacional em Angola não é de soma nula.

 

A dramatização da perda de influência portuguesa desvaloriza, ironicamente, a profundidade da relação entre os dois países, ignora o interesse dos angolanos e retrata Angola como um quintal exclusivo de Portugal. Mais interessante e produtivo seria debater exactamente como devem o Governo português - através de programas de cooperação - e as empresas posicionar-se nesta nova fase política e económica em Angola. E lembrar que a subserviência não substitui a competência.

 

Jornalista da revista Sábado

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