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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 10 de Novembro de 2016 às 00:01

O fim da globalização

Os americanos queriam desesperadamente alguém que lutasse contra o desespero em que vivem. Algo tem de ser feito. Trump não sabe o quê. Os americanos também não. Mas há uma grande fatalidade nesta luta sem fronteiras: a globalização.

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Quem é John Galt? Esta é a pergunta que povoa a novela épica de Ayn Rand, "Atlas Shrugged", escrita em 1957. John Galt é o herói do objectivismo de Rand, o símbolo do individualismo capitalista na sua forma mais pura, onde a liberdade limita qualquer interferência estatal. Ayn Rand é ainda hoje a ideóloga da direita libertária americana, a fonte da juventude do discurso de Donald Trump. Trump poderia ser o John Galt da política e não o Pato Donald que alguns julgam que é. Passado o choque eléctrico na consciência liberal europeia, que julgam que os EUA é um condomínio entre Wall Street, Silicon Valley e São Francisco, Trump está aí para ser o sismo que se pressentia, mas que todos julgavam controlável. Não era. Trump é mais um passo na ruptura na placa tectónica que governa o mundo há décadas. A casta, quase sempre bipartidária em cada país, que está conectada através do G-7, do G-20, do FMI e da UE. De fora dessa pequena guerra de tronos estão a classe média desapossada pela globalização e os marginalizados nos países ocidentais. Aqueles que se descobriram sem segurança perante um mundo que não compreendem. E todos eles estão a encontrar vozes: Brexit, Trump, Marine Le Pen.

 

Destruída a mobilidade social, o ascensor social que permitia a John Galt lutar contra o sistema hegemónico e totalitário, é música para os ouvidos dos desapossados o que diz Trump. A ordem estabelecida em 1980 com a globalização foi agora posta em causa. Populistas como Trump querem voltar atrás, ao nacionalismo proteccionista. Que tornará o mundo mais fechado e não apenas economicamente. A transição para este novo mundo que Trump simboliza será desordenada e incerta. E a Europa, para não se desintegrar, terá de perceber isso urgentemente. Os americanos queriam desesperadamente alguém que lutasse contra o desespero em que vivem. Algo tem de ser feito. Trump não sabe o quê. Os americanos também não. Mas há uma grande fatalidade nesta luta sem fronteiras: a globalização. E é com isso que vamos viver. Sem saber o futuro.

 

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