Fernando  Sobral
Fernando Sobral 21 de maio de 2015 às 19:39

O fim da política como a conhecemos

A crise financeira trouxe à tona de água muito do que se escondia no fundo dos rios de Portugal: o estilhaçar do Estado social, a corrupção endémica, a partidarização excessiva que contaminou a administração, a pobreza geral do país (económica, moral e cultural).

A crise vai contaminar os partidos políticos que se sucedem na governação desde o 25 de Abril, numa espécie de condomínio privado, como sucede mesmo aqui ao lado, em Espanha. A destruição acelerada das classes médias, que trocavam a sua segurança pelo voto no PS, PSD e CDS, está a destruir o palco fulcral destes partidos: o centro. A insegurança geral veio para ficar, porque faz parte da globalização. Por isso esquerda e direita, liberais e marxistas, estão confundidos. A política submeteu-se à gestão, os políticos aos técnicos, os visionários aos burocratas. É neste ácido sulfúrico que os partidos do sistema se estão a corroer.

 

Dizia Passos Manuel há mais de um século: "Antes de ser de esquerda ou de direita já era da Pátria. A Pátria é a minha política." Nada admirará que cada vez mais cidadãos façam eco destas palavras antigas. Olhe-se para a fragmentação política em Espanha, e para os perigos de ingovernabilidade, para se ter uma ideia do que enfrenta a democracia como a conhecemos nos próximos anos. Acorrentados à dívida brutal, os políticos também vão ter menos espaço para promessas. Assim, que política teremos para o futuro? O que parece que poucos observam é que estamos a assistir a uma mutação civilizacional que é a sequência daquilo que Margaret Thatcher dizia nos idos da década de 1980: que a economia era o método; porque o objecto era a mudança da alma. Conseguiu-se isso.

 

Ao contrário do que insinuava Marx, neste regime neoliberal em que vivemos, a exploração já não tem lugar como alienação. Na sua aparente liberdade (e daí o fim dos contratos de trabalho, de relações prolongadas de vínculos entre pessoas e empresas), os cidadãos passaram a explorar-se a si mesmo, tendo a crença de que assim se realizam. Tal como foi no mundo do consumo, que também está a desaparecer, comprar era uma forma de cada um se realizar. Agora cada um realiza-se, de forma eufórica, trabalhando "para si", até quase morrer, porque o "êxito individual" deve ser conseguido a todo o custo. É por isso que vemos cada vez mais uma sociedade esgotada.

 

Há uma sociedade em mutação profunda, das relações de trabalho (e este deixou de ter o valor que tinha há décadas) aos comportamentos sociais. E os partidos não entenderam ainda que isto está a demolir os pilares da democracia como eles a entendiam e a partir da qual organizavam o seu assalto ao poder. A pulverização partidária é o primeiro passo para essa necessidade de pessoas que deixaram de ter qualquer segurança necessitarem de um poder forte, de um líder que lhes há-de apontar um caminho qualquer, da redenção ou da destruição.

 

A fuga de portugueses deste país mostra que se ainda há uma válvula de escape, isso não durará para sempre. O neoliberalismo global está a destruir a segurança e as obrigações e vínculos. Nenhum emprego está já seguro. Nenhum sistema de segurança pode ser garantido. A "competência" atropela todos os outros valores sobre os quais as sociedades que ainda conhecemos foram construídas. É uma panela de pressão que tem todos os perigos imagináveis. Os partidos políticos portugueses, para lá dos floreados, vão um dia destes confrontar-se com isso.

 

Grande repórter

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