Fernando  Sobral
Fernando Sobral 22 de abril de 2014 às 18:15

O FMI e o pequeno Portugal

Em “Little Dorrit”, Charles Dickens fala-nos de uma prisão onde as pessoas que têm dívidas estão presas, sem poder trabalhar, até pagar. Nunca as pagarão, é claro. A menos que sejam perdoados.

Portugal está na sua penitenciária virtual. E, por isso, está sujeito às dicas do FMI ou aos delírios da UE. Come e cala. Porque não tem outra saída.

 

No livro, Dickens escreve que o crédito é um sistema onde a pessoa que não pode pagar arranja uma outra pessoa que também não pode pagar para garantir que conseguirá pagar. No caso português essa contínua dança da chuva encharcou-nos. As elites atiram Portugal para o mar alto e depois não há bóias de salvação para os mais frágeis.

 

Quando o tempo acalma, os bons negócios voltam a prosperar à espera da próxima borrasca. É por isso que vivemos agora rodeados de arame farpado. E temos de ler relatórios como os do FMI, semelhante a uma reguada. O problema é que a classe política portuguesa continua a acreditar que não vê a luz aos quadradinhos como numa prisão.

 

A temível conexão entre o mal e a dívida levanta outra questão pertinente: de quem é a culpa? Quem empresta e nos diz onde gastar (como fez a UE até certo ponto?) ou quem gasta sem pôr os neurónios a funcionar?

 

A ideia de que a dívida é um pecado tem uma dimensão religiosa. E por isso existem prisões para quem deve. Mas num país onde se torrou dinheiro com o BPN ou com as PPP e quem paga é o reformado e os sujeitos a impostos cada vez mais duros, pergunta-se se a pena está a ser aplicada a quem tem culpa.

 

A questão é se Portugal aprenderá esta lição que o colocou num labirinto sem fuga possível e visível. E se a elite que nos vai governando aprende alguma lição. Ou não. 

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