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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 26 de Julho de 2017 às 20:25

O fogo e o gelo

Depois da sua cena dramática a dar 24 horas ao Governo para divulgar a lista das vítimas, Hugo Soares transformou-se num distribuidor de rifas, pirolitos e farturas.

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Extinguiu-se o incêndio do número de mortos. Colocou gelo no fogo. Tardiamente, a PGR veio divulgar a identidade das vítimas, algo que foi pasto seco para um dos mais vergonhosos momentos de dislates políticos (e não só) a que se assistiu desde que há democracia em Portugal. A dor foi insultada de todas as formas. E, neste filme, há um político que fez "harakiri": Hugo Soares, o diletante pistoleiro inventado pelo PSD. Depois da sua cena dramática a dar 24 horas ao Governo para divulgar a lista das vítimas, Hugo Soares transformou-se num distribuidor de rifas, pirolitos e farturas. Em vez de ser a credível voz da oposição no Parlamento. É assim que a classe política definha defronte dos olhos dormentes dos portugueses.

 

O que mais custa em tudo isso é que o país arde. Está a tornar-se cinza. Com as consequências terríveis, em termos ambientais, humanos e económicos, em que isso se traduz. Estamos a pagar caro o fim da nossa relação com a natureza. Deixámos de dialogar com ela. E as políticas de retirada do interior do país, alimentadas nas últimas décadas, selaram este triste destino. Acabámos com os guardas-florestais, centralizámos nas grandes cidades e nos gabinetes os serviços ligados à agricultura ou à floresta. Fechámos os serviços públicos (de escolas a centros de saúde) que davam oxigénio ao interior. Não foi só a inexistente política florestal que chacinou o nosso contacto com a natureza.

 

Numa das suas belas poesias, Ruy Belo escreveu: "No princípio de tudo o coração/como o fogo alastrava em redor/uma nuvem qualquer toldou então/céus de canção promessa e amor/Mas tudo é apenas o que é/levanta-te do chão põe-te de pé/lembra-te apenas o que te esqueceu." Perdemos a ligação à natureza e devotámos a nossa fé na tecnologia. A desertificação florestal do interior começou com o fim da presença do Estado no interior. Agora não há gelo que apague o fogo. Só resta este insulto moral à dor nacional que muitos cavalgaram como valquírias dispensáveis. Como se gostassem do cheiro do napalm pela manhã.

 

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