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O Governo do Solnado 

Portugal ensandeceu de vez. Pelo menos a julgar pelo que se lê, ouve e vê nos media. O assunto do momento, que consome a atenção de jornalistas e comentadores, é a formação de um Governo que na realidade não é bem um Governo, mas uma "coisa" cuja única função é ser deitado abaixo.

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Foi criado simplesmente para cumprir a formalidade de uma rejeição parlamentar. Democracia? Criar governos para serem derrubados? Se é isto a tal estabilidade tão apregoada, indispensável para sossegar os mercados, vou ali e já venho. Citando um famoso gaulês: estes portugueses devem estar loucos.

 

No entanto, muita gente fala como se a criatura tivesse destino ou serventia. Cúmulo do delírio: Passos Coelho declara que este é um Governo para quatro anos. Delirante, mas entende-se. De alguém habituado a afirmar coisas que não correspondem minimamente à realidade. Mas o que dizer dos múltiplos comentários sobre a composição, os ministros, as suas carreiras e as qualificações, os novos ministérios? Quando se trata de algo que não existe, de uma farsa, animada por gente que se alistou para uma curtíssima visita ao deserto. Uns quantos que se dispuseram a uma figuração irrelevante, a serem o pano de fundo de uma cerimónia ridícula, a tomada de posse, e de seguida, humilhante, a queda no Parlamento. Tropa que vai para onde a mandam, mesmo conhecendo o desfecho mortal. Fica uma linha no curriculum, mas que será sempre uma mancha, um borrão inestético, um percalço que servirá o riso, a galhofa, não a compostura e ainda menos a dignidade.

 

No meio desta loucura, do pequeno coletivo que disserta sobre o país, são particularmente notáveis os comentários sobre os novos ministérios. A novidade, o seu alcance, a sua importância. Ora a criação de um novo ministério implica um conjunto de reajustamentos orgânicos que este Governo não vai poder fazer. Nem vão ter tempo de imprimir cartões de visita, quanto mais.

 

Estamos a viver uma piada nacional. Uma anedota. Faz lembrar a guerra do Solnado. Está lá, é do Governo? E desata tudo a rir.

 

Como é então possível que tanta gente alinhe numa paródia desta dimensão? Duas palavras explicam: radicalismo e podridão. Portugal que nunca foi radical derivou nestes últimos anos para o radicalismo político. A direita, munida de simplismos e legitimada pelos tais muito vagos e abstratos mercados, tornou-se radical na sua visão da sociedade e agiu em conformidade. Aceitou ser capataz contra o seu próprio povo, que desdenhou, criticou e condenou à miséria, atacou cegamente a própria ideia de serviço público, vendeu o país ao desbarato. No processo foi arrogante, perdeu qualquer capacidade de diálogo, abandonou o centro para se acantonar em posições extremistas comuns a muita da extrema-direita que vai crescendo por essa Europa fora.

Esse radicalismo, como num pêndulo, teve o efeito perverso de gerar uma posição singular, inesperada, na esquerda, que, sem outra saída, se radicalizou também. Daí que Portugal esteja hoje tão claramente dividido entre esquerda e direita, sem qualquer possibilidade de entendimento entre os dois campos. Não sei se a longo prazo isto é positivo, mas já no final dos anos 1980 alguns intelectuais americanos propunham, virando-se para a esquerda: sejamos radicais, porque é que só a direita se pode divertir? Não correu mal. Acabaram por eleger Obama.

 

A derrota eleitoral da coligação de direita, pois venceu no número mas perdeu na espécie, devia ter servido sobretudo no PSD para uma reflexão, uma chamada de alerta, um regresso ao centro, à social-democracia. Tal como tem exigido Pacheco Pereira e outros, poucos. Mas não. Preferiu-se a fuga para a frente, a radicalização do radicalismo, expressa na formação deste Governo vergonhoso, mas sem vergonha. O resultado é a degradação, a ruína do partido e das ideias que o dominam. O Governo faz de conta, o Governo do Solnado, não é só um momento particular da paródia nacional. É o sinal da podridão do PSD. Vai ser penoso recuperar.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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