Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 12 de março de 2018 às 11:11

O irónico abecedário da bolsa

Rumores - Parte integrante do dia-a-dia dos mercados, disseminados por alguns que querem ganhar dinheiro com eles.

Um abecedário diferente é a minha proposta para hoje. Por trás das palavras associadas ao léxico dos mercados financeiros, há uma série de significados reais que aqui quero deixar, em alguns casos acompanhados de uma dose de ironia.

 

Azar – Desculpa perfeita quando os investidores perdem dinheiro em bolsa. Curiosamente, a palavra azar é muito mais utilizada do que a palavra sorte. Porque, quando se ganha, a sorte nunca é apresentada como argumento.

Baixar (o preço médio) – Decisão tomada pelos investidores de comprar mais acções quando a cotação começa a cair abaixo do preço que compraram. Acreditam que é a forma mais fácil de não saírem chamuscados mas, normalmente, é a ponte perfeita para caírem no Inferno.

Curtos – Aqueles que "apostam" na quedas das acções, vendendo antes de comprar. São vistos como os responsáveis por todas as quedas fortes das acções, mesmo que a maioria das vezes não o sejam.

Deixar (as acções para os netos) – Esta é uma expressão muito utilizada pelos investidores quando algo corre muito mal em bolsa. É a desculpa perfeita para não se admitir que se está a perder dinheiro ("Eu só perco quando vendo") e que se tomou uma má decisão, chutando o seu erro para o muito longo prazo.

Especuladores – O alvo principal do ataque dos investidores que perdem ou da comunicação social para justificar os movimentos injustificáveis. Eles são o álibi perfeito pois nunca se defendem. E os investidores esquecem-se de que a sua grande maioria são, por definição, especuladores.

Faquires – A quantidade de vezes que os pequenos investidores compram acções que estão em queda livre é enorme. Como se fossem autênticos faquires a apanhar facas a cair. Infelizmente, não são faquires. E, por vezes, os cortes são letais.

Gap – Espaço que fica nos gráficos quando a acção abre acima do máximo da última sessão ou abaixo do mínimo da última sessão. Muitos investidores acreditam que os "gaps" são para serem fechados, mais cedo ou mais tarde. E alguns ficam décadas à espera do comboio na paragem do autocarro.

Horizonte (temporal) – Aquilo que faz com que, nas discussões sobre bolsa, todos acabem por ter razão. Ninguém refere o seu horizonte temporal e um dia o mercado acaba por dar razão a todos. Mesmo que seja tarde demais.

Índice – O português é o PSI-20 e tem 18 acções. Difícil de acreditar? Sim. Credibiliza um índice chamar-se 20 e ter apenas 18 acções? Não. Sejam bem-vindos à bolsa portuguesa.

Jogo (da bolsa) – Simulação interessante para quem quer aprender sobre mercados financeiros, mas cujas estratégias que conduzem à vitória são as que conduzem à ruína, no longo prazo, na vida real.

Lobo (de Wall Street) – Filme sobre Jordan Belfort, famoso gestor na bolsa americana que viria a ser preso. Quem viu o filme, ficou a pensar que a vida dos "traders" era uma mão-cheia de festas, mulheres e drogas. O que estou eu então aqui a fazer rodeado de gráficos aborrecidos, sem curvas, mas com máximos históricos? Se calhar, por isso, é que a minha vida não dava um filme.

Mais-valias – Todos se queixam do elevado imposto sobre as mais-valias actualmente cobrado em Portugal mas, infelizmente, a grande maioria nunca o chega a pagar.

Notícias – Uma das principais razões para os investidores perderem dinheiro. Sim, as notícias. Muitos investidores vão a reboque das notícias, comprando depois das boas notícia e vendendo depois das más, esquecendo que o mercado as vai incorporando muito antes de serem divulgadas.

OPA – As ofertas públicas de aquisição são os momentos de maior entusiasmo nos mercados. Mas, na verdade, os fantasmas das OPA são muitas das vezes a última esperança acenada pelos investidores que estão a perder dinheiro numa acção.

Price-Targets – Informação relevante e acertada quando vão no sentido da carteira dos investidores. Informação desprezível e manipuladora quando apontam na direcção oposta das acções dos investidores.

Quem (comprou/vendeu?) – Pergunta incessantemente repetida pelos investidores quando há um movimento forte, como se isso os fosse ajudar nas futuras decisões a tomar. Como se um "gordo" a entrar numa acção fosse garantia de sucesso…

Rumores – Parte integrante do dia-a­-dia dos mercados financeiros, disseminados por alguns que querem ganhar dinheiro com eles. Mas só perde dinheiro com os rumores quem quer. Ignorá-los continua a ser a melhor estratégia mesmo que nos deixe frustrados quando 1% deles se vier a revelar verdadeiro.

Suporte – Conceito de análise técnica que defende zonas em que a acção tem mais compradores do que vendedores. O que acho curioso é que alguns investidores que não negoceiam com base na análise técnica, quando a acção entra em queda livre, começam a apregoar que não há motivo para pânico porque está quase a chegar ao suporte.

Tendência – Esta devia ser a palavra mais respeitada pelos investidores. Andarem de braço dado com ela, seria a garantia de sucesso, mas a mente humana gosta de complicar e desafiar a tendência. E os resultados não poderiam ser piores.

Ulisses – Este que vos escreve e que, desta forma, resolveu o seu problema de encontrar uma palavra começada por uma difícil letra.

Volatilidade – Geradora de oportunidades para quem tem uma estratégia claramente definida. Geradora de confusão e perdas para quem deixa a razão ser vencida pelas emoções.

Xávega – A arte xávega consiste na pesca com uma rede de arrastar, com saco, utilizada com a ajuda dos bois para a pesca de peixe miúdo. Há alturas nos mercados em que alguns movimentos parecem uma imitação sublime desta arte tão portuguesa, sempre com os bois ao comando.

Zoo – Os mercados financeiros assemelham-se a um jardim zoológico. Bem, talvez mais uma selva regulada povoada por um sem-número de animais: tubarões, peixinhos, patos, elefantes, tartarugas, xitas, ursos e touros. Quem ganha? Sempre os camaleões. 


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