Fernando  Sobral
Fernando Sobral 22 de fevereiro de 2018 às 19:38

O legado de Victor Cunha Rego

Faltam reflexões como as de um conservador culto como Victor Cunha Rego: de alguém que conseguia ultrapassar a guerra de trincheiras em que se tornou a sociedade portuguesa, cada vez mais pobre e desértica em termos de ideias e de acções.

Em Outubro de 1992, Victor Cunha Rego escrevia: "O poder sempre foi um obstáculo natural à informação. Mas a apatia é um inimigo mais recente e mais preocupante. (…) Os jornais deste fim de século ou são embaixadores da condição humana ou nada são." Este é um dos textos que surgem na cuidada edição da D. Quixote de "Na prática a teoria é outra", que recolhe os escritos do grande jornalista (e não só), publicados entre 1957 e 1999. Ler muitos deles é também regressar ao passado, quando tive oportunidade de o conhecer, no início da muita actividade de jornalista, no "Semanário", de que era o incontornável director. Atento, culto como poucos, algo místico, parecia antever as jogadas seguintes, como um mestre de xadrez. Mais tarde, as suas lúcidas análises na última página do "Diário de Notícias", num estilo curto e certeiro, foram uma fonte de inspiração para o que mais tarde viria a fazer. Mas, independentemente disso, grande parte destes artigos (os escritos em Portugal, depois do seu exílio brasileiro após o assalto ao "Santa Maria") são o retrato de um país e de uma elite que abanou, mas nunca mudou. Muitos dos seus textos eram sobre a "intimidade de favores", o maior pecado do poder português há muitos séculos.

 

Victor Cunha Rego era certeiro: "Somos uma democracia na forma e uma cleptocracia na prática." Tinha uma visão clara: "O problema político português - se Portugal sobreviver - continuará a ser o Estado e a sua relação com a sociedade civil." Isto foi escrito em 1984. Mudou alguma coisa? Percebia o campo minado para onde caminhávamos (e que a globalização e a tecnologia ainda tornariam mais veloz): "Governos e oposições sabem ser impossível manter o modelo social europeu a partir do disparo da globalização. Mas ninguém fala. Guardam, como só as máfias, a lei do silêncio e vêem em cada ano que passa sem desmoronamentos uma prova da sua argúcia." Entendia o grande desafio que, mais dia, menos dia, se colocará defronte de nós, num mundo robotizado, com trabalho precário para alguns, com problemas ambientais graves, com elites afastadas da sociedade em geral. Percebia, como poucos, o dilema da Direita e da Esquerda face ao Estado (algo que os anos de Passos Coelho viriam a confirmar de forma mais radical): "A direita, em 1974, ao perder o Estado, perdeu o poder. Depois, a esquerda, com a degradação do Estado, perdeu a solidariedade política. Uma nova direita pode - como se está a ver - criar-se e crescer sem o Estado e, mesmo, contra ele. A esquerda não pode." Se quisermos ler um pouco destes últimos anos de vida política, com a queda de Passos e a ascensão de António Costa, meditemos nas palavras de Victor da Cunha Rego. Elas ajudam a entender as clivagens existentes na política e na sociedade portuguesa há muito e que os últimos anos tornaram ainda mais transparentes.

Faltam reflexões como as de um conservador culto como Victor Cunha Rego: de alguém que conseguia ultrapassar a guerra de trincheiras em que se tornou a sociedade portuguesa, cada vez mais pobre e desértica em termos de ideias e de acções. Cada vez mais apática.

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Alentejano 26.02.2018

a questão é que se alguém como ele aparecesse assim que mostrasse a cabeça era época de tiro ao alvo ! existe actualmente nesta sociedade (e talvez sempre tenha existido) uma grande aversão ás opiniões contrarias mas hoje em dia os tiros são de snipers onde dantes eram de bacamarte, o risco é maior

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