Leonel Moura
Leonel Moura 09 de novembro de 2012 às 12:51

O mais desejado

De súbito, toda a gente quer o PS. A direita no poder quer que o PS apoie a sua política.
De súbito, toda a gente quer o PS. A direita no poder quer que o PS apoie a sua política. A esquerda na oposição quer que o PS colabore no derrube do governo. Os apelos são lancinantes. Uns acenam com o patriotismo. Outros com a responsabilidade histórica. No PSD há mesmo quem diga preferir o PS a um CDS pouco leal e resmungão. E até o PCP vai afirmando que estaria disposto a dar a mão, desde que o PS abdicasse da troika, da Europa e, já agora, do título, pois socialismo só há um.

Tanta agitação não devia estranhar ninguém, num país que a fabrica todos os dias. Normalmente, estas coisas esgotam-se rápido. Mas não deixa de ser educativo.
Se bem se lembram, a direita ganhou as eleições com maioria absoluta e tem, portanto, todas as condições para prosseguir a sua política. Coisa que aliás vem fazendo sem grande problema, se excetuarmos o pequeno detalhe de estar a desmantelar a economia do país.

À esquerda do PS também não devia haver razão de queixa. O ambiente é bastante favorável à oposição do estilo bota abaixo, única que por esses lados se sabe fazer. Passos Coelho e Vítor Gaspar são um maná para os trocadilhos do Bloco e para a ira proletária do PC.

Então, por que é que esta gente precisa tanto do PS? Convém recordar que foram precisamente estes quatro partidos que, numa aliança objetiva, embora pouco higiénica, se juntaram para derrubar o PS e o governo de Sócrates. Deviam estar satisfeitos por terem contribuído para o afastamento de um partido tão nefasto para a sociedade portuguesa. Por terem libertado Portugal de um problema.

Afinal, parece que não. Ontem era preciso abater o PS a todo o custo, mesmo através de golpes baixos e alianças indignas, hoje todos o namoram e querem.

Existem certamente explicações variadas e algumas serão do foro psiquiátrico. A dose de loucura que afeta a política portuguesa justifica muita coisa. Mas existem explicações mais racionais.

O PS tornou-se no centro da vida política nacional. É o partido da classe média, da iniciativa, da modernização e o único capaz de empreender reformas significativas na sociedade portuguesa. Muitos dos grandes saltos qualitativos das últimas décadas, na saúde, no ensino, na Administração Pública, na ciência, na tecnologia, na energia, devem-se ao PS. É o partido identificado com a mudança e com a inovação. O único que tem gente e capacidade para elaborar visões estratégicas e não se fica pela simples gestão de receitas criadas por outros.

Por isso, todos sabem que sem o PS não é possível empreender mudanças importantes. Não é possível mobilizar as pessoas. A esquerda, no fundo, sabe que só o PS pode defender o estado social e uma sociedade mais justa e equilibrada. A direita sabe que sem o PS não conseguirá realizar a reforma do estado, nem nenhuma outra que ajude a equilibrar as suas contas. Por isso, todos querem o PS.

Só que as coisas não são tão simples para este partido. Os cantos de sereia, à esquerda e à direita, só podem ser resolvidos à maneira de Ulisses. Ouvem-se mas não se podem corresponder de maneira nenhuma. Seria fatal.

A esquerda não se cansa de tentar puxar o PS para um campo que lhe retiraria a sua identidade. Simplesmente não é viável. Basta pensar na questão europeia. PC e Bloco são contra a Europa. O PS é geneticamente europeu.

À direita, no contexto atual, ainda seria pior. Passos Coelho não está somente a destruir a economia, a exterminar a classe média e a empobrecer a generalidade dos portugueses. Passos Coelho está também a desbaratar a parca credibilidade do sistema partidário. Ao enganar os portugueses com uma campanha que prometeu exatamente o oposto do que agora faz, e ao aplicar medidas de verdadeiro saque fiscal, Passos Coelho arrasta tudo consigo para um poço negro. Arrasta o PSD, o sistema político e Portugal inteiro. Daí que tenha conseguido em pouco meses ter praticamente toda a gente contra si. Associar-se ao governo, neste contexto desastroso, não seria um mero erro por parte dos dirigentes do PS, seria um suicídio. Se o fizerem, desaparecem do mapa.


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.


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