Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 16 de abril de 2019 às 20:35

O "Marxismo cultural" e a direita diletante

Quando vejo a "direita musculada" pendurada nos bíceps de Trump, Orbán e Bolsonaro, a execrar o pragmatismo flácido da direita "do costume", percebo que o que lhe interessa não é propriamente salvar as sociedades liberais ocidentais do totalitarismo do pensamento "Marxista-cultural".

Na semana passada, pegando num artigo de Adolfo Mesquita Nunes sobre a "direita musculada" e o "Marxismo cultural", escrevi que a tentativa de a esquerda colonizar intelectualmente as instituições não é uma coisa nova. Existe pelo menos desde que há cem anos Gramsci concluiu que o capitalismo não seria derrubado enquanto o mundo estivesse construído sobre a hegemonia ideológica da "burguesia".

 

Bem sei que não descobri a pólvora. Mas pareceu-me uma evidência que convinha lembrar, porque, em boa parte, a história desse "Marxismo cultural" não é a história de uma marcha triunfal, mas a de como ele foi sendo absorvido pela ordem tradicional, ora desnatado pela social-democracia (no que interessa) ora transformado numa flor de boa-consciência na lapela do capitalismo (no que tem de mais proclamatório).

 

Eu vejo os "Marxistas-culturais" que pululam nas nossas instituições - nas universidades, nos partidos, nos media, nos vários recantos da burocracia do Estado - e confesso que todos eles aparentam sinais de um aburguesamento acelerado e irremediável. Nunca é com espanto, portanto, que quando vou à janela reparo que o capitalismo ainda comanda a maioria das nações avançadas, enquanto noutras o Marxismo se arrasta moribundo ou já é um cadáver embalsamado.

 

Sim, é verdade que as bases morais ou religiosas em que assenta a cultura tradicional não são hoje seguidas exactamente como o eram há cem anos. Mas até isso, bem ou mal, é mais consequência do materialismo capitalista do que obra do materialismo dialético.

 

Infelizmente, o que também não é novo é a forma como reagiu a direita que se sentiu atingida pelo artigo de Adolfo Mesquita Nunes (e, em menor medida, pelos textos de outros, como eu, que o apreciaram). É a velha ladainha do sectarismo, uma mistura de sociologia liminar e psicanálise de palpite, que reza assim: "quem não pensa como eu é da direita diletante, que não é verdadeiramente de direita porque quer ser moderna e agradar à esquerda".

 

O mais curioso é que esta acusação é ela própria um argumento muito diletante. É o argumento de quem não quer discutir nada. Dizer que alguém não concorda connosco porque está psicologicamente tutelado pelo adversário é um processo de intenções totalmente fútil, por natureza indemonstrável e, por isso, indesmentível.

 

A utilidade deste "argumento" é matar qualquer discussão à nascença, desqualificando moralmente o outro lado. O que só é bom para o autocomprazimento e sentimento de imunidade intelectual de quem a ele recorre, e para mais nada. Como argumento político, é o argumento diletante por excelência. É mesmo o Lord-Henry-Wotton-languidamente-refastelado-no-divã-persa-a-debitar-aforismos-enquanto-observa-pela-primeira-vez-o-retrato-de-Dorian-Gray dos argumentos políticos.

 

Aliás, é um "argumento" tão pronto-a-vestir que, por regra, não assenta a ninguém. No meu caso, por exemplo, basta ver os arquivos desta coluna para perceber que tenho atacado muitas manifestações da agenda "cultural" da esquerda, seja a tentativa de legalização da eutanásia, a histeria em torno dos cadernos de exercício segmentados por género, os delírios tributários da facção Mortágua ou o novo puritanismo (tema no qual, aliás, a esquerda radical e a "direita musculada" andam alegremente de mão dada).

 

No entanto, acho que a medida da reacção da direita a estes movimentos tem de ser minimamente compatível com a real dimensão da ameaça aos seus valores. Só isso. Sob pena de se entrar numa devastação argumentativa e em desvarios identitários, que o bom povo, seja nas versões mitificadas seja na versão mais prática de "eleitorado", tratará de levar na devida consideração - ou seja, pouca.

 

Quando vejo a "direita musculada" pendurada nos bíceps de Trump, Orbán e Bolsonaro, a execrar o pragmatismo flácido da direita "do costume", percebo que o que lhe interessa não é propriamente salvar as sociedades liberais ocidentais do totalitarismo do pensamento "Marxista-cultural". Na melhor das hipóteses, é praticar um exercício ocioso de combate intelectual. Na pior, é substituir aquele totalitarismo pelo seu próprio totalitarismo. Num e noutro caso, a realidade é secundária. A "direita musculada" é que é a verdadeira direita diletante.   

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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