Fernando  Sobral
Fernando Sobral 13 de junho de 2018 às 18:35

O Mundial do Goldman Sachs 

O polvo Paul, que adivinhava os resultados do Mundial de 2010, só precisava de duas caixas. O banco fica claramente a perder. Mas, mesmo assim, partilha connosco a ideia de que o Brasil vencerá a Alemanha na final e será campeão.

Como todos os mais famosos treinadores de bancada, o Goldman Sachs também achou importante dar o seu prognóstico sobre o Mundial de futebol. Fez uma milhão de simulações para todas as equipas presentes no torneio e chegou a algumas conclusões extraordinárias. Foi um esforço inglório. O polvo Paul, que adivinhava os resultados do Mundial de 2010, só precisava de duas caixas. O banco fica claramente a perder. Mas, mesmo assim, partilha connosco a ideia de que o Brasil vencerá a Alemanha na final e será campeão. Portugal chegará às meias-finais, vencendo nos quartos-de-final a Argentina. Ficamos aliviados. Vivemos, nas vésperas do início do Mundial, um período de euforia. É um sinal dos tempos: Portugal está imerso no seu esplendoroso passado (ser campeão europeu) sem reconhecer a realidade de hoje. E nada condiciona mais uma selecção do que isso. Há dois anos, Portugal, seguindo a engenharia conservadora de Fernando Santos, vivia de uma defesa muito sólida e da vontade genial de Cristiano Ronaldo. Ele resolvia. Foi assim, entre este esquema rígido e a sorte, que Portugal venceu.

 

Dois anos depois, Portugal está diferente. Ronaldo já não é super-homem e não resolve tudo. E a defesa já não tem a frescura de então. A chegada de médios criativos de grande qualidade (Bernardo Silva, Gelson, Bruno Fernandes, Gonçalo Guedes) implica que a curto prazo, com o eclipse de Ronaldo, o estilo da selecção terá de se adaptar. Ou seja, estamos perante um outro conceito estético. Neste Mundial, Portugal ainda jogará dividido entre estas duas culturas tácticas. Mas há uma satisfação: se o futebol permite o orgulho, a satisfação com as coisas bem-feitas e a comunhão de valores, hoje a selecção já não vive só de vitórias morais. Geralmente os portugueses choravam a derrota como se ela tivesse sido uma vitória. Havia sempre desculpas. Havia sempre o fado. Havia sempre a sorte arredia. Hoje há uma outra cultura, mesmo com um Fernando Santos avesso ao risco. Este é o fim de um ciclo. E o início de outro.

 

Grande repórter

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