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Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 18 de Junho de 2018 às 22:05

O peru e o interior 

Muitos políticos dizem que foram a Pedrógão nos últimos meses. Mas esse gesto de candura não apaga o contínuo desprezo do Terreiro do Paço pelo que vale pouco em termos eleitorais.

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António Teixeira de Vasconcellos foi um dos grandes jornalistas e escritores do século XIX e a sua infinita ironia era uma lâmina afiada. Conta-se que um dia, afundado em dificuldades financeiras, foi surpreendido por um credor que lhe bateu à porta de casa, onde o encontrou a comer um enorme peru. O credor disse: "Então V. Ex.ª não me paga e come peru?" Ao que Vasconcellos terá respondido: "Oh homem, que quer! O peru morreu de fome." Portugal é um verdadeiro peru: morre de falta de comida enquanto alguns tornam o seu estômago numa homenagem ao toucinho. Este é um país onde faltam recursos, mas onde muitos continuam a esbanjar o que sonegam sem reparar no facto. Não é uma questão puramente financeira: é de moral e de estratégia. Quando assistimos ao pesar do país político por causa dos catastróficos incêndios do ano passado, não deixamos de ver que as feridas são mais profundas. O abandono do país profundo fez-se e continua a fazer-se, como se viu agora em mais um fecho de um balcão de um banco, que deixa uma freguesia envelhecida do interior a 30 quilómetros de um outro. Durante anos, escolas, serviços públicos e de saúde foram encerrando um após outro. Não é só a falta de limpeza das matas e florestas que fomenta os incêndios.

 

Os perus do interior não são apetecíveis para uma elite política urbana, que acorda com vista para o Atlântico. Muitos políticos dizem que foram a Pedrógão nos últimos meses. Mas esse gesto de candura não apaga o contínuo desprezo do Terreiro do Paço pelo que vale pouco em termos eleitorais. Todos agora pedem "investimento público" para o interior mas, quando estiveram no poder, essa necessidade estava na última gaveta da sua secretária. Num país que agora vive uma crença total no turismo, como uma fé salvadora, sempre se esqueceu de que era necessário criar uma estratégia para o interior. Um projecto económico, ecológico e de vida. É uma pena (e uma sina) que, neste país, o peru continue a ser unicamente distribuído em Lisboa e arredores.

 

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