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José Macário Correia 30 de Dezembro de 2019 às 19:29

O preço da estabilidade emocional

Por tristes razões, nos dias que correm o presidente executivo do Crédito Agrícola criou mais uma vergonha no comportamento nacional dos gestores, associando todo o grupo a um ato sem ética e ainda mais miserável quando acontece numa instituição da economia social com raízes no cooperativismo e na seriedade e solidariedade entre as pessoas.

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Fica para a história este episódio que por muitos anos não sairá da memória coletiva. Mas outros episódios ainda carecem de explicação, independentemente da informação dada ao Banco de Portugal.

 

A economia social gerou em Portugal dois bancos: o Montepio e o Crédito Agrícola. Os demais têm uma génese empresarial clássica, com os seus acionistas e com o peso próprio do capital investido por cada um, esperando daí os resultados do negócio.

 

O Montepio tem raízes no mutualismo, com cerca de dois séculos de história, no qual as pessoas se juntavam para se socorrerem nas dificuldades da vida. A farmácia e os medicamentos, o carro funerário, o seguro em caso de acidente, a entreajuda dos pescadores, são boas razões para a criação de mutualidades. Mais tarde a gestão de poupanças em grupo deu progressivamente origem a um banco, ainda que dirigido por uma associação sem fins lucrativos e não tutelado pelas Finanças e pelo Banco de Portugal, mas sim pela área dos seguros e pelo Ministério da Segurança Social. Neste contexto, o poder foi-se concentrando numa pessoa, com atos sucessivamente mais espertos e fora do normal controlo da banca.

 

O Estado foi apertando a malha e obrigou à clara designação do banco e a analisar as crescentes peripécias do seu líder Tomás Correia. A teia criou um vergonhoso enredo e há poucos dias, depois de tentar diferentes jogadas de sobrevivência, o tal líder teve de sair enlameado e enlameando a instituição.

 

No Crédito Agrícola, com pequenos passos diferentes há coisas comuns que não são nada nobres. Passando pelos celeiros comuns e pelas misericórdias, mais tarde pela tutela da Caixa Geral de Depósitos, é no pós-25 de Abril que as Caixas Agrícolas crescem, multiplicam-se e modernizam a gestão. Deixam de ser pequenas cooperativas isoladas e ficam associadas num sistema integrado e com uma Caixa Central, além de terem uma Federação ao lado do banco propriamente dito.

 

As regras estatutárias foram-se afunilando e hoje em dia tudo é controlado pela Caixa Central e pelo seu órgão executivo, em especial pelo seu presidente.

 

O espírito associativo e cooperativo desapareceu completamente. Cada uma das 80 Caixas não tem qualquer autonomia para decidir nada de relevante.

 

Neste sistema de poder instalado com o controlo cerrado de tudo, foram-se nomeando os leais e subservientes e afastando todos os que pensam pela própria cabeça.

 

A nomeação de dirigentes para os órgãos sociais locais é sujeita ao prévio controlo e indicação da Caixa Central e do seu presidente. E quando não confia nos nomes que lhe são sugeridos arranja outros e envia para as Caixas locais que entende, fazendo destas meros balcões da Caixa Central. As assembleias-gerais das Caixas são controladas na agenda, nas deliberações, nas atas e em tudo o resto. Até se copiam e replicam documentos com erros e imperfeições.

 

Porque há um ano levantei as questões que o Banco de Portugal pediu para serem esclarecidas, suscitando um esclarecimento dentro do grupo, só não tive resposta, como fui dispensado da função que exercia, por causa de ter feito a pergunta.

 

Este não é o cooperativismo que António Sérgio pensou e estimulou.

 

Vamos pendendo para poderes absolutos, com manobras de conveniência e de interesse pessoal, de que o caso da estabilidade emocional que implicava dois mil euros à esposa é apenas um deles.

 

Criou-se uma vergonha geral dentro do grupo, no qual em bom rigor o presidente gerou uma situação que não sendo grande no montante envolvido, dito com generosidade, é de muita gravidade ética e deontológica, ainda por cima com a conivência dos demais administradores e de um tal Conselho Geral e de Supervisão, que é pouco mais do que uma existência de fachada.

 

Urge que o sistema legal e estatutário do Crédito Agrícola seja revisto evoluindo para princípios de maior transparência, democracia nas decisões e alguma liberdade no funcionamento das Caixas locais.

 

A regra de que apenas a administração em funções pode propor listas aos órgãos sociais seguintes, com uma alternativa numérica impraticável, cerceia a democracia e perpetua sempre os fiéis do presidente central. Os nomeados (eleitos em espartilho condicionado) nunca têm liberdade nem autonomia para criticar quem os designou. Assim se fecha o sistema e daqui resultam as decisões de estabilidade emocional entre outras. Os subjugados ficam sim  em perfeita instabilidade emocional e com o emprego dependente da fidelidade ao chefe máximo. Isto é próprio de regimes que já escasseiam.

 

A total concentração de poderes, sem uma efetiva prestação de contas e de justificação da gestão a uma assembleia genuinamente democrática e livre, vai dar muito mau resultado, para lá do já sabido, ainda que no sentido contabilístico não existam (para já) motivos de preocupação, coisa diferente do que se passa no Montepio.

Os fundadores destes dois bancos da economia social terão razões para dar voltas na tumba, não foi para isto que se sacrificaram.

Quem cala consente, por isso os valores éticos e morais que perfilho não me deixam calar.

 

Agricultor

 

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