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Pedro Santana Lopes 24 de Junho de 2020 às 19:30

O que faria Marcelo?

Pergunta-se: tão grande proximidade política, já com apoio à recandidatura, dos dirigentes socialistas e do Presidente, tornará mais fácil ou mais difícil esse trabalho da oposição?

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Este artigo é escrito para falar de factos e para fazer questões. O objetivo, hoje, não é dar opinião e, menos ainda, tomar posição. Escrevo este texto sem qualquer propósito que não seja o de sublinhar alguns factos e lembrar algumas questões. Começo pelo seguinte:

Se o atual PR fosse líder do PSD ou de outro partido, como agiria perante a declaração de António Costa na Autoeuropa?

Há mais de um ano, um novo partido fez o seu primeiro congresso, em Évora. Foi primeira página, nesses dias, em alguns órgãos de comunicação, que não se garantia, na moção de estratégia oficial, o apoio à recandidatura do atual Presidente. “Esperam para ver”, escreveu-se, sobre esse assunto, nas reportagens. Estabeleciam-se, na moção, três matérias principais para se avaliar a atuação do Chefe do Estado:

– Empenho na mobilização nacional para o crescimento económico, nomeadamente pelo aumento e melhoria da produtividade;

– Empenho determinado, permanente e corajoso na solução do muito que há para resolver e garantir na área na justiça;

– Respeitando esse novo partido as exigências da solidariedade institucional, o grau de isenção do Chefe do Estado face ao Governo e aos partidos da oposição.

Não falando dos dois primeiros itens, detenhamo-nos no terceiro, ligado à presente realidade política.

1. O atual Presidente queixou-se, durante muito tempo, de que não havia oposição. Em certas alturas, deu mesmo esse argumento como uma explicação do que a muitos se afigurava como uma excessiva colagem ao primeiro-ministro e ao Executivo. Mais recentemente, desde que António Costa fez a “declaração de Palmela”, passou a privar mais e a elogiar o líder da oposição.

Pergunta-se: tão grande proximidade política, já com apoio à recandidatura, dos dirigentes socialistas e do Presidente, tornará mais fácil ou mais difícil esse trabalho da oposição?

Será certa ou errada a ideia, que vários comentadores têm difundido, de que já há bloco central com a entente PR-Governo?

2. A votação na generalidade do Orçamento suplementar demonstra bem o que é a configuração atual do poder político em Portugal: voto a favor do PS, abstenção do PC, do Bloco e do PSD. Repito: falo de factos. Ou seja: entente PR-Governo e espaço alargado e variado de tolerância política na relação Governo-AR.

Tenho pena de não poder reproduzir aqui uma intervenção que fiz em Viseu, a 9 de janeiro de 2018, nas Diretas do PSD. Retenho só esta parte:

“Se ganhar o outro candidato, António Costa vai passar a escolher, segundo as matérias e as situações, entre os apoios à sua esquerda e o apoio à sua direita.” Como se viu no Orçamento suplementar, agora, já se juntam. Ninguém ignora a situação que se vive e a razão de ser do documento em apreço. Mas, mesmo assim, será normal? Seria assim se fossem outros no Governo?

3. O que pensará o Presidente sobre a questão-chave? O que diria o comentador Marcelo deste dilema? Deve, pode, quem seja oposição ao Governo, apoiar a recandidatura deste Presidente da República? Foi o próprio que, na resposta ao apoio de Palmela, declarado por António Costa, disse que aquilo que tinha ouvido do PM era fruto de um trabalho de equipa que nos próximos anos ia ser impossível (ou muito difícil) quebrar. O que significa isto politicamente? Alguém tem dúvidas?

Se a oposição não fizer oposição a essa equipa, o Presidente acha que faz bem ou que faz mal? Que existe ou que não existe oposição? Considerará concebível que a oposição se junte à tal equipa?

4. Em janeiro de 2018, decidiu-se muito do que iria ser a política portuguesa nos tempos seguintes. Na verdade, António Costa gosta muito da esquerda mas devia ser muito grato ao partido à sua direita: lembremos 2007, para além da data de há dois anos, com decisões e escolhas que tanto lhe agradaram e lhe abriram as portas para conseguir concretizar as suas pretensões, em Lisboa e no país. São factos, não são opiniões.

5. Quando penso no estado da direita e do centro-direita, em Portugal, duas palavras francesas logo me ocorrem: “ecrasée” e “rassemblement”. Esses setores, como alternativa democrática de conjunto, foram, na verdade, destroçados. Perguntar-se-á: fala de quem? Quem pertence a esse espaço? Há quem não queira pertencer porque diz ser de esquerda ou centro-esquerda; havia quem quisesse mas não conseguiu representação (sabem quem) e, finalmente, quem pertença mas esteja muito enfraquecido.

Assim sendo, há duas hipóteses: ou desistem de uma alternativa, ou lutam por ela. Os sistemas políticos estão cada vez menos democráticos mas, mesmo assim, haverá sempre o tempo depois desta época que atravessamos. Poderá demorar mais ou menos tempo, mas chegará. À direita e no centro-direita só há um caminho: o “rassemblement”. Depois das diretas de janeiro de 2018, já com um novo partido, propus, na primeira Convenção do MEL, em 11 de janeiro de 2019, uma coligação a toda a direita e centro-direita. Em 24 de fevereiro de 2019, falei mesmo em coligação pré-eleitoral, com os novos e os antigos partidos. Ninguém quis.

Agora, espero que já não tenham dúvidas: já admitem que é mesmo necessário esse “rassemblement”?

Como? Com quem? Quando? Depende da vontade, da arte, do engenho, de cada um. Não excluindo ninguém que aceite a Liberdade como valor inalienável.

Em 1983, quatro pessoas fizeram uma publicação chamada “Contra o Bloco Central”. Conceição Monteiro, José Miguel Júdice, eu próprio e o atual Presidente da República. Sei o que pensa a Conceição, tenho ouvido com muita atenção o José Miguel Júdice, e vou observando o Presidente também candidato. Como Presidente, já sabemos o que Marcelo faz e como faz. Mas se fosse líder do PSD ou de outro partido à direita do PS, ou seja, do espaço político de onde vem e onde sempre militou, o que faria Marcelo?

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