Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 12 de março de 2018 às 19:19

O que pensariam Sá Carneiro e Amaro da Costa?

A morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa causou um profundo sentimento de orfandade no PSD e no CDS, que dura até hoje, e que é compreensível se percebermos que os dois partidos foram muito cedo privados dos seus principais referenciais políticos.

Não sabemos ao certo o que diriam e o que fariam Sá Carneiro ou Amaro da Costa nos dias de hoje, como enfrentariam os riscos e as oportunidades do mundo global, como promoveriam a integração de Portugal na Europa, como se posicionariam num contexto de intervenções externas no contexto do euro, como lidariam com as pressões populistas.

 

Não sabermos o que pensariam aqueles que injetaram alma e fulgor nestes partidos marca a militância no PSD e CDS. Estamos a fazer bem? Estamos a respeitar a nossa história? Essas são perguntas constantes nestes partidos, arrancadas que lhes foram as vidas dos seus maiores, motivando uma permanente dúvida identitária.

 

Há várias formas de lidar com essa ausência. Há quem se agarre aos seus textos, escritos nos anos 60 e 70, e, assim agarrados, procure explicações para o mundo de hoje, um mundo que nenhum dos dois conheceu. Há quem procure repetir as suas estratégias, ensaiadas nos anos 70, aplicadas a um cenário nacional e internacional distinto que nenhum deles poderia ter previsto. Há quem, beneficiando de um estatuto pessoal de proximidade, assuma o papel de intérprete quase autêntico daquilo que seriam hoje as suas ideias, num exercício quase espírita. Há quem os invoque, uma e outra vez, para toda e qualquer discussão interna, buscando uma autoridade e legitimidade que lhes falta nos argumentos.

 

Nunca me atrevi a nenhum desses exercícios e reajo com indignação a quem os promove. Percebo o papel de guardião da memória dos fundadores, aliás essencial. O que já não percebo, nem aceito, é o papel que alguns se arrogam de intérpretes, nos dias de hoje, do que seria o pensamento de ambos. É um papel indigno, de soberba, de falta de senso. Se nenhum de nós pensa o mesmo que pensava há vinte anos sobre milhares de assuntos, mesmo os que envolvem os valores mais profundos, como pode alguém saber, presumir, o que pensariam hoje Sá Carneiro ou Amaro da Costa e, pior do que isso, usar essa presunção como argumento político? Se não há realidade mais volátil do que a política, num mundo para mais em mudança vertiginosa, como pode alguém atrever-se a esse exercício?

 

No CDS, esta falta foi sendo compensada por Adriano Moreira. Não sendo fundador do CDS, Adriano cedo obteve um justo estatuto de referencial ideológico e humano sem nunca, em tempo algum, se ter arrogado o papel de intérprete do pensamento de Adelino ou guardião do espírito fundacional do CDS. Pelo contrário, e aí reside a sua autoridade, Adriano Moreira, com uma lucidez e juventude notáveis, procurou sempre ser um ator do seu tempo. Os valores de sempre no tempo de hoje, nas contradições de hoje, nas emoções de hoje, nos desacertos de hoje, nas evoluções de hoje.

 

E se me sinto mais próximo do legado de Lucas Pires do que de Adriano, sou dos que nele encontra uma atual e justa e brilhante representação da democracia-cristã dos nossos tempos. Não constituiu qualquer surpresa para mim ouvi-lo afirmar, sem equívocos, que Assunção Cristas representa essa democracia-cristã dos nossos tempos, frase que arrumou sem contemplações todos os poucos que durante semanas, meses, procuraram ser intérpretes da pureza ideológica do partido para afirmar um absoluto disparate, o de que a democracia-cristã estava a ser enterrada: disparate próprio de quem se assusta com o futuro e a evolução e se recusa a ler o mundo, disparate próprio de quem confunde democracia-cristã com outra coisa qualquer.

 

Assunto arrumado.

 

Advogado

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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