Leonel Moura
Leonel Moura 06 de novembro de 2014 às 21:00

O último capitalista

Vamos assistindo, sentados, à destruição do país. Nuns casos por ação direita do fundamentalismo orçamental; noutros pelos seus efeitos colaterais. As mais recentes catástrofes, o desmoronamento do grupo BES e a venda da PT, significam contudo bastante mais do que simplesmente o "mercado a funcionar". Representam o fim do capitalismo português.

 

Existem muitos milionários em Portugal. Mas as nossas maiores fortunas derivam do retalho, do comércio de artigos de mercearia ou de rolhas. E isso não faz um capitalista. Da mesma maneira que os ingleses dizem que são precisas três gerações para fazer um lorde, também um capitalista não se cria de um dia para o outro. Até há algumas semanas, Portugal só tinha um verdadeiro grupo capitalista. A família Espírito Santo era o nosso equivalente dos Rothschild ou dos Rockefeller. Tinham bastante menos dinheiro, mas o mesmo estilo, a mesma forma de exercer e manipular o poder, a mesma visão de domínio absoluto. Faliram. Não sobrou nada comparável.

 

A família Espírito Santo não se dedicava propriamente a um negócio. Geria o país que é coisa bem diferente. Os seus empregados ocupavam os setores mais importantes da atividade económica nacional e tinham presença assegurada em todos os governos. A deliciosa frase "temos de pôr o Moedas a funcionar" ou o caso de Manuel Pinho são pequenos episódios da tentacular rede que estava instalada. O BES financiava todos os partidos, até o Partido Comunista, não fosse um dia ser necessária a sua benevolência. O BES financiava fortemente a cultura, na precisa noção de que é esta que representa realmente uma nação. O BES dominava os negócios estrangeiros, abrindo portas e indicando caminhos. Repito. Não há agora nada semelhante.

 

E não há também dinheiro. As mais importantes e estratégicas empresas portuguesas têm sido vendidas a chineses, angolanos, americanos, brasileiros, franceses e outros. Mas não a portugueses. Não há capital. Podem existir muitos pequenos milionários, mas não capitalistas dignos desse nome.

 

O caso da PT é sintomático. A PT não é só uma empresa de telecomunicações. É a mais destacada fonte de inovação no nosso país. Associada a universidades e centros de investigação é responsável pela formação de milhares de engenheiros e o mais importante motor de desenvolvimento tecnológico em Portugal. Apesar disso prepara-se para ser vendida a um qualquer fundo de investimento estrangeiro, o qual seguirá o inevitável. Desmembramento e desvalorização. Num momento em que se perdem tantos talentos, que emigram ou ficam no desemprego, esta será a machadada final na oportunidade de, enquanto comunidade, fazermos parte do mundo. Caminhamos para uma condição absolutamente periférica. Uma espécie de "interior" da Europa. Pobre, desqualificado, sem capacidade de investir no futuro.

 

Que o Governo não reaja é normal já que, desde o início, assumiu como missão a defesa do interesse dos nossos credores e não os do país. Este é aliás o governo mais socialista e mais estatista que Portugal jamais teve. Todo o dinheiro disponível vai para o Estado, para se manter ativo, pagar juros e cumprir regras impostas. Não tem outro programa. Regras essas absolutamente discricionárias. Sempre me perguntei por que razão o défice tem de ser de 3% e não 5 ou 2 ou nenhum, como seria aliás mais racional? Existe algum estudo sério que o justifique? Já o crescimento é evidente. Sem ele não há recuperação económica, nem se consegue pagar qualquer dívida. Básico.

 

Mas que a sociedade também não reaja é mais grave. Mostra o estado de adormecimento a que se chegou. Vendeu-se a EDP, a REN, a ANA, a Fidelidade, os escombros do BES, segue a PT e depois a TAP. Tudo a estrangeiros. E os portugueses resignam-se. A maioria dos países, com os quais nos queremos sempre comparar, não o permitiria. Um exemplo. As golden shares mantêm-se em vários países europeus, a começar pela Alemanha. Mas mais do que este expediente, o controlo dos Estados sobre a propriedade das empresas consideradas estratégicas é corrente. Não se trata de ideologia, mas de pragmatismo. Sem mais nada para vender, sem verdadeiro capitalismo, estamos destinados à condição de empregados dos outros. Somos os Moedas e os Manuel Pinhos dos donos disto tudo.  

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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