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O anjo exterminador

Não sou grande apreciador de biografias. E ainda menos de autobiografias. Confesso que esse género literário que se desenvolve entre o revisionismo do passado e a manipulação da memória futura não me excita. Mas como sou um leitor compulsivo, ora fruto do

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Mas como sou um leitor compulsivo, ora fruto do acaso ora por recomendação de alguém, lá vou lendo alguns relatos de vidas quase sempre para confirmar o pouco interesse da coisa. Gostei da biografia de Andy Warhol, feita ao estilo de um diário, onde se misturam contas de restaurantes e as conhecidas futilidades da personagem elevadas à condição de obra de arte. E é tudo. Pelo menos até à semana passada.

Foi Ernesto de Sousa, esse último intelectual irreverente que Portugal teve, que nos anos 80 me falou desta autobiografia de Buñuel. Bastante doente, Ernesto morreu algum tempo depois, citou-me uma passagem que julgou particularmente interessante, certamente por causa do seu estado e das cogitações que então teria sobre o inevitável desfecho a breve prazo. Buñuel, um declarado ateu, dizia que não tinha qualquer problema com a morte, mas gostava de cá poder voltar de dez em dez anos para comprar todos os jornais, só para saber qual era o estado do mundo.

Mais de 20 anos depois dessa conversa na sua casa da Travessa do Fala Só, nome que sempre considerei adaptar-se brilhantemente à condição do Ernesto, janto com Vasco Santos, outro audaz e editor da Fenda, que me oferece a referida obra acabada de traduzir. Nessa mesma noite comecei a ler e não parei mais.

É bem provável que o livro tenha imprecisões, omissões, falsidades mesmo. O género a isso obriga. Mas também Buñuel nunca pretende contar mais do que a sua versão dos acontecimentos, coisa que deixa bem claro repetidamente. E esses acontecimentos são em si mesmo fulgurantes. Nascido a 22 de Fevereiro de 1900, na Idade Média, como ele diz, a sua vida atravessa todo o século XX e não como mera testemunha. Buñuel é um dos implicados nas mudanças radicais que sucessivos movimentos vanguardistas, tanto no campo da cultura quanto no terreno social e político, conseguem provocar nas sociedades ocidentais e através delas em todo o globo. Nascido de pai rico, Buñuel é apesar disso e desde cedo sensível à miséria humana que descreve na parte inicial, quando trata da sua juventude numa Espanha extremamente provinciana, num quotidiano totalmente dominado pelos padres, sob uma moral sufocante. É aliás dessa experiência que lhe virá o anticlericalismo militante que os seus filmes de forma simultaneamente tão perversa e divertida exprimem. No início dos anos 20, na Residência de Estudantes em Madrid, torna-se amigo de Lorca, Alberti, Altolaguirre, Bergamín, Dali. Conhece Ortega y Gasset, Unamuno, Valle Inclán. Menos de uma década depois vem o cosmopolitismo de Paris e o encontro com a banda surrealista de Breton, Max Ernst, Aragon, Paul Eluard, Tzara, Magritte, que o aceitam de imediato como membro pleno após visionamento do “Un Chien Andalou”, de 1929. Este primeiro filme, tão inovador quanto chocante, inscreve de imediato Buñuel na história da arte do século XX. Mas é com “L’âge d’or”, de 1930, que o radicalismo irreverente toma as proporções de um grande escândalo de sociedade. Exibido durante seis dias no Studio 28, o filme é proibido pelas autoridades após uma feroz e violenta campanha movida pela direita religiosa e patriótica. Proibição que se mantém durante 50 anos e só volta à exibição pública em 1980 em Nova Iorque e em 1981 em Paris. É obra.

Ao contrário de outros que se perderam na trivialização da arte, Buñuel é bem claro sobre as motivações do grupo. “O movimento surrealista estava pouco preocupado com a sua gloriosa entrada nas histórias da literatura e da pintura. Exprimindo um desejo imperioso e inatingível, procurou acima de tudo a transformação do mundo, mudar a vida.”

A passagem por Hollywood não é menos desinteressante. Muito céptico sobre o “american way of life” e, acima de tudo, o sistema de produção cultural do burgo, Buñuel recheia esta parte do relato com algumas histórias pitorescas. Conta, por exemplo, que um dia é convidado na noite de Natal a jantar em casa de Charlie Chaplin. Um dos presentes, também espanhol mas que ele desconhece, declama durante o repasto um poema extremamente patriótico. Buñuel, que abjura o patriotismo, levanta-se e na saída intempestiva num acto de fúria destrói por completo a circunspecta árvore de Natal. Poucos dias depois volta a ser convidado por Chaplin. Logo à entrada este aponta-lhe outra árvore já refeita com os seus berloques e diz-lhe: sei que não gosta de árvores por isso destrua já esta para que depois possamos jantar descansados.

As peripécias do cineasta nos Estados Unidos não são brilhantes. A direita religiosa consegue expulsá-lo de um emprego no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque quando trabalhava na propaganda antinazi. Talvez por isso, mais tarde, prefere o México a Hollywood. Escolha errada para muitos pois o contrário tê-lo-ia tornado certamente muito mais famoso. Mas é duvidoso que aí tivesse alguma vez conseguido fazer filmes tão notáveis como o Anjo Exterminador, que adoro, Tristana, O Charme Discreto da Burguesia, O Fantasma da Liberdade ou o derradeiro e não menos brilhante Este Obscuro Objecto do Desejo.

Mesmo para aqueles que imaginam o Verão como a sua época sazonal de leitura não posso deixar de recomendar vivamente este “O meu último suspiro” que conta a história desse tão extraordinário homem cineasta do nosso tempo.

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