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Fernando Sobral - Jornalista fsobral@negocios.pt 19 de Outubro de 2011 às 11:44

O cobrador sem fraque

Com o GPS nunca estamos perdidos. Este OE é diferente. É um GPS que não nos oferece um destino.

Com o GPS nunca estamos perdidos. Este OE é diferente. É um GPS que não nos oferece um destino. Corta com o passado e atalha o presente. Avançamos por uma ponte, mas não vislumbramos a outra margem. Não sabemos se chegaremos à outra margem ou se a ponte será dinamitada a meio da viagem. Mas sem corrermos o risco nunca saberemos se conseguimos. Vítor Gaspar acredita no milagre. Os portugueses sabem que já nem os milagres justificam os feriados religiosos históricos. Há custos ocultos, há crimes que nunca terão consequências, há rendimentos que nunca regressarão. As portas do Inferno por onde Dante passa na "Divina Comédia" têm uma frase inscrita: "deixai toda a esperança, vós que entrais". Este OE é uma canção de despedida. Um disco riscado em que Portugal volta ao passado, antes dos delírios da democracia de consumo com que nos iludiram durante anos. 2012 será pior do que muitos imaginavam. 2013 poderá ser ainda pior do que todos calculavam. Mas quem ocupou e usufruiu do Estado durante anos e construiu este regime de compadrios e cumplicidades pode dormir descansado. Quem paga é quem não pode fugir. E já não tem força para emigrar.

Os portugueses vão ficar mais pobres. E vão ter de se habituar a isso. Só esperem os que não fiquem sentados numa esquina de mão estendida para o resto dos dias. Vítor Gaspar é o cobrador sem fraque. Sem anestesia. Sem sorrir. Mas se não fosse assim, era como? Nunca um dilema só teve duas respostas: sim ou não. Não há espaço para o talvez. O Estado vai cobrar o que as famílias têm e o que não têm. E depois, também ele, será uma sombra do que foi.
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