Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Manuel Caldeira Cabral 06 de Março de 2008 às 13:59

O consenso não vai passar por aqui

Em Portugal a proporção de pessoas que completam o secundário está entre as mais baixas da União Europeia, e os que terminam têm dos piores resultados nos testes internacionais (PISA). Uma situação preocupante, tendo em conta que se trata de um ensino sec

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Uma situação preocupante, tendo em conta que se trata de um ensino secundário que absorve mais recursos que a média da OCDE e que tem alguns dos professores mais bem pagos da Europa. Algo está mal. É precisa melhor avaliação dos alunos, das escolas e também dos professores.

Num sistema de ensino com tantos problemas, é estranho que a progressão na carreira e os critérios de avaliação seja o tema eleito daqueles que são os seus principais agentes: os professores. Mas há muitos anos que assim o é. Eu diria mesmo, há muitos ministros que este é o grande assunto de discussão da classe. Isso não acontece por acaso. Acontece porque os sindicatos impuseram um modelo de carreira longo, complicado e espinhoso que só favorece quem está há muito instalado no sistema.

Os professores portugueses no início da carreira são relativamente mal pagos e têm condições de trabalho precárias, enquanto em fases mais adiantadas têm condições estáveis e são, em termos relativos, dos mais bem pagos da OCDE. É uma diferença importante entre as carreiras dos docentes do secundário em Portugal e a que existe em outros países desenvolvidos. Em Portugal há mais desigualdade salarial entre docentes que desempenham o mesmo trabalho, enquanto noutros países as carreiras são mais horizontais, apostando em dar melhores condições salariais e de trabalho a quem inicia a profissão, mantendo uma progressão posterior menos acentuada.

Durante muito tempo os professores aceitaram, mesmo que criticando, regras de promoção na carreira que resultavam, entre outras coisas, da soma de pontos em acções de formação de duvidosa utilidade para a preparação ou avaliação de docentes e alunos. Regras injustas para quem se empenhava mais nas aulas e menos nestas actividades. Era importante mudar os critérios, dando mais ênfase à avaliação do desempenho da profissão. Avaliar o mérito não é fácil, mas é mais justo, e é fundamental para motivar os jovens que estão a apostar numa profissão cujas oportunidades não estão em expansão.

A avaliação é também necessária para garantir a qualidade do sistema de ensino. E não se deve ficar pelos professores. Deve haver também uma avaliação das escolas e dos seus projectos. É importante promover uma maior autonomia, e em paralelo uma maior responsabilização de quem dirige as escolas perante comunidade. Só assim o ensino público pode garantir a qualidade, evitando a fuga dos filhos da classe média e dos mais ricos para o ensino privado, e dando aos mais pobres oportunidades, em vez de os condenar ao abandono escolar.

Diminuir o abandono e melhorar as aptidões dos alunos deveria ser o centro das preocupações. No sucesso das nossas escolas secundárias, mais do que em qualquer outro lado, joga-se a competitividade futura do país, e também a oportunidade de construir uma sociedade mais justa e equilibrada. Os excluídos pelo sistema (36% de abandono escolar), os que ficam mal preparados, vêm principalmente das classes mais baixas e vão ser os pobres da próxima geração. São pessoas que não podemos perder.

Este Governo parece empenhado em introduzir reformas no ensino secundário há muito reivindicadas pela sociedade portuguesa. Era bom que os professores, os pais e os partidos da oposição se unissem e contribuíssem para esse esforço. Mas o Governo deve ouvir e aproveitar o contributo de todos. Mas, nesta área, a procura de consensos tem importantes limites. Há interesses contraditórios entre os professores e entre estes e os pais e alunos.

Os professores apresentam-se como estando unidos contra a actual proposta de avaliação. Mas estão divididos sobre a apresentação de qualquer alternativa de avaliação ou de mudança. Nos últimos 30 anos os professores e os sindicatos foram actores principais na elaboração de leis, programas, estatuto da carreira docente, etc. O forte envolvimento não impediu o enorme descontentamento da própria classe. A presente contestação expressa também uma frustração antiga, expressando assim a necessidade urgente de mudar. As soluções, não são, nem devem ser, contra os professores. Mas também não podemos esperar que venham dos professores, se o único consenso possível entre a classe for nada mudar, num sistema que todos reconhecem está mal. Essa solução seria a pior para todos.

Mais artigos de Opinião
Ver mais
Outras Notícias