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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt 17 de Dezembro de 2004 às 13:59

O conúbio sem cama

A almoçarada, no Monte Estoril, e a conferência de Imprensa, no Hotel Ritz, de Pedro Santana Lopes e Paulo Portas, reclamar-se-iam de uma simples nota de humor, não fora o caso de a Imprensa portuguesa tomar a sério aquelas duas figuras do grotesco políti

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Santana revelou, prazenteiro, ante câmaras de tv e alvoroçadas esferográficas, ser aquele um vulgar encontro de amigos de peito. Portas, gracioso, acrescentou que almoçam há vinte anos. Santana, agora grave, corrigiu: há mais de vinte, pràí vinte e cinco. Espirituoso, Portas adiantou que continuariam a almoçar ainda mais outros tantos vinte e muitos anos. Pessoalmente, desejo-lhes boas digestões.

Trocando as festivas declarações por um verbo mais austero, os dois compadres, comovidos, confessaram, no Ritz, que concorriam, separados, às eleições, mas que andariam de mão dada, caso vencessem, confirmando o estado de harmonia platónica que tem albergado os seus sentimentos políticos. Caíram nos braços um do outro.

Os dois quadros de revista constituem um pormenor adstrito ao pequeno não-acontecimento que representam. E pretendem fazer de todos nós, pacientes espectadores desta cegada, uma informe massa de tolos. Os assessores que montaram as extravagâncias, e a Imprensa (toda ela!) que lhes acorreu, esbaforida e acriticamente, concorreram para tornar ainda mais risível os dois fantasistas, quando desejavam conferir aos actos a solenidade na qual, por fim, nenhum deles se respalda.

Tanto Pedro quanto Paulo confessam-se calorosos amigos, marcados pelas turbulências da adolescência, pelas relações febris, pelas apetências ideológicas. Admiram-se reciprocamente, fazem fé de inteireza, caldearam os afectos na batalha política. Em todas as grandes amizades há, sempre, uma ponta de exigência cúmplice, infensa aos golpes baixos da traição e às aleivosias dos ambiguidade. Amigo é amigo – ponto final.

Porém, nestes dois homens parece haver algumas evanescências de carácter. A crer do que diz, de Santana, o seu ex, Henrique Chaves, e a admitir como verdade o que Marcelo Rebelo de Sousa afirmou sobre Portas, antigo parceiro de estúrdias, o comportamento dos indicados não aparenta estar moldado em belas, nobres e instrutivas simplicidades. Recompondo o puzzle, nem Pedro deve confiar inteiramente em Paulo, nem Paulo deve completamente acreditar em tudo quanto Pedro lhe assegura. Cada um deles tem de se acautelar com o outro.

Na essência dos delírios nervosos de Paulo Portas habita muita insegurança. Nas incongruências pueris de Pedro Santana Lopes reside uma fragilidade despeitada. Em ambos, há algo de mal resolvido. Mas Portas é mais inteligente, mais culto, mais lido, mais táctico, mais astuto. Articulista turbulento, os textos que subscreveu n’«O Independente» combinavam o gosto da polémica com o prazer da prosa cheia de urtigas. Sem ter quem o sofreasse, insultou, injuriou, perseguiu os próceres do PSD, com especial verdete pelo dr. Cavaco, alvo preferido. Santana Lopes é um iletrado com provas dadas. E as imprudências que infatigavelmente demonstra caracterizam o arrebique das suas deficiências culturais e políticas, e o ornato de uma mediocridade atrevida. Um ruidoso grupo de acólitos aplaude-o, numa cascalhada sem tino, sem exigência: absurda e abstrusa.

As encenações a que assistimos certificaram a astúcia maligna de Portas e a confrangedora falta de tino de Santana. O namoro sem casamento resulta numa vitória de Paulo sobre Pedro. O módico PP sobrepôs-se ao poderoso PSD, agora em queda acelerada, dilacerado por lutas internas, desprovido da sua natureza fundadora. Santana presumiu que passava por cima dos escombros provocados pelas suas inépcias, e do desprezo que a «base» do partido nutre por Portas e pelo PP de Portas. As declarações proferidas no Ritz demonstraram quem manda em quem, e qual é o que obedece àquele que exige obediência. Porque o partido ganhador, neste conúbio sem cama nupcial, é o PP – e o PSD surge vestido de «valet de chambre», destinado a vestir a calça, o casaco e o sobretudo a Paulo Portas.

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