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Michel Rocard 06 de Março de 2008 às 13:59

O desastre capitalista

Existe um estranho mau pressentimento na economia mundial. Os jornais divulgam revisões em baixa para as estimativas de crescimento de todos os grandes países desenvolvidos: Estados Unidos, Alemanha, França e Japão. Ao que parece, nenhum é deixado de fora

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Simultaneamente, os jornais dão notícias desoladoras praticamente apenas sobre a banca e os mercados financeiros, prestando pouca atenção à economia real, como se a crise actual fosse puramente financeira e condenada a manter-se nesses termos. De facto, alguns especialistas também estão convictos de que a crise pode ser solucionada com o simples refinanciamento da banca e de que o impacto na economia real será relativamente limitado.

Esta é, claramente, a convicção do Banco Central Europeu, que está a injectar centenas de milhares de milhões de euros no sistema bancário para garantir a sua liquidez. No entanto, ao contrário da Reserva Federal norte-americana, o BCE não reduziu as taxas de juro, que é aquilo que mais importância tem para as empresas e os agregados familiares. Outros peritos, evidentemente, consideram que a economia real está em risco e que a ameaça de recessão é genuína. Contudo, lamentavelmente, poucos especialistas conseguem falar com confiança sobre o sistema financeiro e a macroeconomia. Assim sendo, o que há-de pensar um não-especialista?

Importa analisar em que ponto está actualmente a economia mundial. O maior número de incumprimentos devido aos empréstimos “subprime” irá ocorrer nesta Primavera. Assim, o impacto completo da crise ainda está para vir: 1,3 milhões de proprietários norte-americanos de casas já não estão a conseguir pagar as prestações dos seus empréstimos à habitação. Em 2008, mais três milhões irão juntar-se a eles.

Além disso, a amplitude do crédito malparado, que de momento pende sobre a banca, continua a não estar contabilizada e poderá ascender a várias centenas de milhares de milhões de dólares. O montante total dos activos que estão actualmente em risco é ainda mais significativo, porque as hipotecas foram misturadas com outros tipos de activos e estes “pacotes” foram vendidos por todo o mundo. Uma subsidiária norte-americana do Deutsche Bank, por exemplo, viu-lhe ser vedada por um tribunal dos EUA a execução de uma hipoteca porque não conseguiu provar a sua posse.

A economia mundial está repleta destes pacotes envenenados. Consequentemente, os bancos desconfiam uns dos outros e praticamente deixaram de conceder empréstimos entre si, o que compromete a actividade económica, já que reduz fortemente a disponibilização de crédito às empresas. Desta forma, a recessão parece evidente.

A quantidade de liquidez na economia mundial é surpreendente e a expansão monetária por parte dos bancos centrais não a explica completamente. Durante mais de duas décadas, os accionistas de todos os países desenvolvidos, não-organizados e passivos desde 1945 até 1975-1980, reformularam-se sob a forma de fundos de pensões, fundos de investimento e fundos de cobertura de risco. Agora, são intervenientes importantes e activos (tanto enquanto accionistas maioritários como minoritários) em todas as grandes empresas do mundo desenvolvido.

Para impulsionarem o valor dos seus títulos, estes accionistas apoiaram a iniciativa de redução do volume global dos salários e do número de colaboradores que as empresas contratam. Com efeito, nos últimos 25 anos, a proporção de salários directos e indirectos em percentagem do PIB caiu entre 8% e 11% em todos estes países. Consequentemente, os empregos precários e a insegurança laboral, que pouco se faziam sentir entre 1940 e 1970, afectam, actualmente, mais de 15% da população do mundo desenvolvido.

O salário médio real tem-se mantido estável nos últimos 20 anos nos Estados Unidos, com 1% da população a captar todos os ganhos resultantes do crescimento de 50% do PIB no mesmo período. Esta situação “libertou” muita liquidez para as actividades financeiras, empreendimentos de risco e especulação. Só em França, nos últimos 20 anos, foram injectados cerca de 2,5 biliões de euros no mundo financeiro, o que sugere um total de 30 a 60 biliões de dólares para a economia mundial como um todo.

Todo este cenário foi acompanhado pela crescente imoralidade do sistema. A remuneração dos líderes das empresas atinge actualmente 300 a 500 vezes o salário médio dos colaboradores intermédios, contra 40 vezes no século XX e 50 vezes antes de 1980. Um pouco por todo o mundo, o número de empresas que enfrenta problemas legais por vários tipos de fraude está a aumentar fortemente.

O pior, infelizmente, está ainda para vir. Atendendo a que os rendimentos da maioria das pessoas estão estagnados e a serem delapidados pelo aumento das prestações dos seus empréstimos à habitação, o consumo deverá diminuir, levando a um menor crescimento e menor emprego. Uma recessão só contribuirá para intensificar a precaridade dos empregos e o desemprego, criando tensões sociais que, obviamente, não ajudarão a aliviar a crise financeira. Parece que temos todos os ingredientes para uma demorada e intensa tempestade perfeita do declínio económico e da agitação social.

Nós, no mundo desenvolvido, vivemos em democracias. A cada quatro ou cinco anos, a legitimidade do sistema precisa de ser confirmada através de eleições. Mas estará o sistema a perder de tal forma essa legitimidade, devido à crise económica e social, que nem as eleições voltarão a ser viáveis?

É claro que o capitalismo continua a ser mais compatível com a liberdade pessoal do que o comunismo alguma vez foi. Mas é agora perfeitamente óbvio que o capitalismo está demasiado instável para sobreviver sem uma forte regulação pública. É por isso que, depois de anos e anos a ser negligenciado como uma opção viável, é altura de delinear um projecto social-democrata para o palco político.

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