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Glória Rebelo 18 de Setembro de 2006 às 13:59

O diálogo Ásia/Europa

Ainda a propósito da realização do The Asia Europe Meeting – subordinada ao tema «Desafios globais, respostas conjuntas» e realizado nos dias 10 e 11 de Setembro – julgo oportuno reflectir sobre o diálogo Ásia/Europa.

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Desde a eliminação de barreiras ao comércio têxtil chinês decidida pela Comissão Europeia para a União Europeia (UE) – há cerca de ano e meio – que, perfilando-se já como verdadeiros gigantes da produção mundial, países como a China não param de reafirmar um crescente poder económico. Volvidos estes meses, se a distância-tempo que invoco parece para a generalidade dos portugueses manifestamente curta, para a China não é. E não se trata de uma discrepância de calendário?

É que neste período muito mudou. Se em Janeiro de 2005 a China ocupava nos ranking de avaliação da economia mundial o 7º lugar, em Dezembro a imprensa mundial conferia grande protagonismo ao facto de – e em virtude da revisão do seu crescimento em 2004, associada a um aumento do consumo interno e à dinâmica dos serviços – a China se ter tornado a 6ª economia mundial, à frente da Itália.

Com um fortíssimo crescimento – na ordem dos 9,5% a 10% em 2005 – prevê-se que já este ano a economia chinesa ultrapasse a francesa (que ocupa o 5º lugar mundial) e mesmo a inglesa (que se encontra em 4º lugar), ficando apenas – e por ora – atrás das economias alemã, japonesa e norte-americana. Acresce ainda o facto de o ano de 2005 ter sido central para a integração regional asiática: a China, o Japão, a Coreia do Sul e os países da ASEAN – Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Brunei, Vietname, Laos, Birmânia e Cambodja – iniciaram o processo gradual de criação de uma zona de comércio livre na Ásia Oriental, ideia lançada pelo Primeiro-ministro chinês em 2003 que visa concretizar o fim das barreiras tarifárias à circulação de bens até 2010.

A Europa não ignora o desenvolvimento desta zona do mundo e a UE é, actualmente, um parceiro privilegiado da China em áreas de cooperação diversas, assim como um grande parceiro comercial. Na verdade – e muito graças ao seu rápido desenvolvimento – a China tem entusiasmado investidores e parceiros de negócio europeus. A razão é simples: este país representa um mundo de oportunidades para os negócios, quer ao nível da produção, quer do consumo. No que respeita à produção, oferece, como é sabido, vantajosos factores de atracção para as empresas: a mão-de-obra muito mais barata (quer ao nível do salário, quer da formação) e custos de instalação comparativamente baixos. E à área da produção, juntam-se os factores de atracção inerentes ao consumo: o mercado chinês está a crescer e as empresas europeias voltam-se agora para o comércio e serviços, garantindo oferta a um mercado de cerca de 1300 milhões de consumidores.

Contudo, olhar para a China como um mundo de oportunidades locais de investimento é manifestamente redutor. Desde logo porque a China representa também uma oportunidade no que refere à captação de investimento. Segundo os dados relativos ao Investimento Directo Estrangeiro (IDE) divulgados pela OCDE em Junho último, a China – que em 2005 atraiu o seu maior recorde de sempre em IDE – reforçou em muito a saída de capital de investimento para o estrangeiro. Ou seja, permanecendo uma zona de grande atracção mundial de investimento, emerge agora como uma forte nação investidora no estrangeiro, razão pela qual alguns países europeus procuram também captar o seu investimento.

De facto, o IDE chinês no estrangeiro não cessa de crescer e em 2005 registou uma subida de 123% em relação a 2004. E, se grande parte deste investimento tem sido aplicado em aquisições, fusões, em capital de acções, algum também se dirigiu ao sector produtivo. Por exemplo – enquanto países como a Espanha ou a França se preparam para fortalecer os laços comerciais com este país – a Alemanha mantém já uma forte cooperação com a China em diversos sectores. A vitalidade económica criada entre os dois países tornou-se crucial para as cerca de 1800 empresas alemãs que operam na China e só a Alemanha – o principal parceiro económico europeu da China – assegura perto de um terço das trocas entre a China e a UE (atente-se, por exemplo, no caso da Siemens que produz centenas de locomotivas que se destinam às linhas ferroviárias de grande velocidade na China).

Acresce ainda que se acredita que o actual descolar da economia europeia – anunciado pela Comissão Europeia e antecipado pelo FMI – assente sobretudo na retoma do investimento privado e do consumo interno, possa estar associado a este fulgor comercial entre a Ásia e a Europa. 

Contudo, e à margem deste fulgor, crescem diversas preocupações junto da população europeia. Afectada pela rapidez da produção e pelo volume da importação dos produtos asiáticos que – e é um facto inquestionável – têm a virtude de fazer baixar os preços, a população europeia confronta-se com dilemáticas que ilustram um dos grandes paradoxos da actual política económica europeia colocando, frequentemente, perguntas como: «será possível conciliar os interesses dos importadores com os dos produtores (agrícolas e industriais)?», ou ainda de «como conciliar o interesse do consumidor com os do trabalhador, desejoso de conservar o seu emprego?». Mas infelizmente - e talvez porque obnubilada pela preocupação em assegurar a retoma económica - estas questões pouca atenção têm recebido na agenda política e económica europeia.

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