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Yuriko Koike 13 de Maio de 2014 às 15:45

O dilema russo do Japão

Para os cidadãos e líderes japoneses, a brutal anexação da Crimeia pelo presidente russo Vladimir Putin foi um regresso não surpreendente ao normal paradigma da história da Rússia.

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Com efeito, a maioria dos japoneses encara essa acção como tendo sido determinada por uma espécie de gene expansionista do ADN político da Rússia, em vez de considerarem que foi o próprio Putin ou as especificidades da crise com a Ucrânia.

 

O Japão está particularmente preocupado com o expansionismo russo, porque é o único país do G-7 que tem actualmente uma disputa territorial com a Rússia, que ocupou os seus Territórios do Norte desde finais da Segunda Guerra Mundial. Essa ocupação teve início entre 28 de Agosto e 5 de Setembro de 1945, quando a União Soviética anulou o Tratado de Neutralidade soviético-japonês que existia e invadiu não só a Manchúria, ocupada pelos japoneses, como também a ilha mais a Sul de Sakalin e os antigos territórios japoneses das ilhas de Etorofu, de Kunashiri, de Shikotan e de Habomai.

 

Com receio de que o desenvolvimento e uso de armas atómicas por parte dos EUA contra o Japão privasse a União Soviética de quaisquer ganhos territoriais no Leste, Estaline ordenou ao Exército Vermelho que invadisse. Mas o Japão, que tinha já passado pelos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki, tinha aceite a Declaração de Potsdam, a 14 de Agosto, o que significava que a guerra já tinha terminado quando o Exército Vermelho ainda para lá marchava.

 

Desde então, estas ilhas foram controladas pela União Soviética e, posteriormente, pelo seu Estado sucessor, a Rússia. E, tal como em todas as regiões da Rússia, os seus habitantes ficaram mais pobres devido ao governo corrupto e incompetente, seja liderado pelos comunistas ou pelos actuais capitalistas de compadrio.

 

Numa estranha reviravolta da História, dada a anexação da Crimeia, depois de e os cidadãos nativos japoneses dos Territórios do Norte terem sido mortos ou expulsos, muitos ucranianos foram para as ilhas durante os anos da era Soviética, e ainda ali vivem. Se houvesse um referendo para a independência da Ilha de Etorofu, onde cerca de 60% dos habitantes têm raízes na Ucrânia, questiono-me até que ponto é que Putin aceitaria o resultado tão prontamente como a votação sobre a Crimeia, que foi levada a cabo sob a ameaça das armas?

 

Depois de chegar ao poder, em finais de 2012, o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe tem procurado melhorar as relações com Putin, na esperança de que se iniciem conversações sérias sobre os Territórios do Norte. Mas agora que Putin tornou bem claro o seu projecto de restauração imperial, essas esperanças esvaneceram-se.

 

Reconhecendo isso, Abe condenou a anexação da Crimeia, considerando-a "uma violação da integridade da Ucrânia e da integridade da sua soberania e território". Abe acrescentou que "as tentativas de alterar o 'status quo' pela força não podem ser ignorados" e que o Japão ponderará a aplicação de mais sanções económicas contra a Rússia, em cooperação com o G-7.

 

Escusado será dizer que estas observações destacaram o facto de o território japonês e as suas águas territoriais estarem sob ameaça, "pela força", no Mar do Leste da China, por parte da China. A lição a retirar agora é que, no que diz respeito a disputas territoriais, o Japão não vai sujeitar-se a “tentativas de mudar o status quo pela força”.

 

A resposta da China à crise na Ucrânia foi particularmente reveladora. Durante três décadas, a China proclamou a “não-ingerência” nos assuntos internos dos Estados soberanos como a regra mais importante das relações internacionais. Mas quando Putin invadiu a Ucrânia, a China demonstrou não estar de harmonia com este princípio. Em vez de condenar a Rússia por invadir e anexar a Crimeia, absteve-se no Conselho de Segurança das Nações Unidas e apontou mais críticas ao novo governo popular da Ucrânia do que ao comportamento rufia de Putin.

 

Todos os países da Ásia retiram uma única conclusão da aceitação tácita da China no que se refere à apropriação ilegal do território da Crimeia por Putin: que também a China pensa que talvez isso esteja certo, e se estiver convicta de que pode ficar impune por invadir territórios disputados, seja no Mar do Sul da China ou nos Himalaias da Índia, então assim o fará. Assim, para que a dissuasão seja eficaz, os países asiáticos terão de reforçar as suas defesas e unir-se para pedirem o cumprimento da legislação internacional, de modo a que a China compreenda que a anexação de territórios ao estilo de Putin custará caro à sua economia.

 

No futuro imediato, o Japão trabalhará com o G-7 no sentido de assegurar que as ambições imprudentes de Putin não põem em perigo outras regiões da Ucrânia. O Japão já decidiu providenciar 1,5 mil milhões de dólares em ajuda económica à Ucrânia, o mais forte compromisso – até agora – por parte de um país a título individual, mesmo tendo em conta os EUA.

 

Antes da invasão da Crimeia, as negociações territoriais entre o Japão e a Rússia deram sinais de progresso. Além disso, vários esforços de cooperação económica bilateral, como projectos envolvendo gás natural liquefeito, estavam a seguir em frente.

 

No entanto, está agora bem claro que Putin está a recolocar a Rússia na era da estagnação de finais dos tempos soviéticos e que também subscreve a máxima do antigo líder soviético Leonid Brezhnev de que “aquilo que temos, mantemos”. Por isso, a conversa de Putin sobre alcançar um acordo com o Japão no que diz respeito aos Territórios do Norte foi provavelmente tão falacioso como as suas reivindicações de que os russos na Crimeia estavam em perigo, precisando por isso da protecção das tropas russas.

 

Mais importante ainda: o Japão já percebeu que deixar ficar tudo na mesma perante uma Rússia agressiva que mina a ordem internacional poderá para encorajar outros países geograficamente próximos a acolherem as tácticas sem lei de Putin. Os tempos em que o Japão só olhava para dentro acabaram. O Japão vê agora ameaças no resto do mundo no contexto da sua própria segurança, e reagirá da forma adequada.

 

Yuriko Koike, ex-ministra da Defesa do Japão e conselheira para a segurança nacional, foi presidente do Partido Liberal Democrata do Japão e é deputada na Dieta Nacional (Parlamento japonês).

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2014.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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