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O elogio da crise

Diversos indicadores apontam para o início da retoma, depois da crise mais severa desde a Grande Depressão de há cerca de 80 anos. Os BRIC retomam taxas de crescimento de antes da crise, a Alemanha, a França e Portugal registam taxas de crescimento...

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Diversos indicadores apontam para o início da retoma, depois da crise mais severa desde a Grande Depressão de há cerca de 80 anos. Os BRIC retomam taxas de crescimento de antes da crise, a Alemanha, a França e Portugal registam taxas de crescimento trimestrais positivas e em locais tão afastados como Hong Kong e Londres o imobiliário apresenta sintomas de recuperação. A discussão assume agora uma natureza essencialmente alfabética - evolução em L, mais cautelosa, em U, intermédia ou em V, optimista (bullish).

Ninguém contesta a necessidade de ultrapassar a crise, sendo mesmo frequente a adesão a políticas de intervenção pública por quem, em condições normais, as consideraria uma intromissão nefasta no livre funcionamento dos mercados. Desejamos a sua ultrapassagem para podermos regressar à actividade normal e, se possível, a uma expansão acelerada indispensável à redução do desemprego e à contenção dos défices.

No entanto, a crise tem consequências positivas que não deveríamos desperdiçar: ao nível da actividade económica, da sua regulação e da governação empresarial.

A organização da actividade económica regista níveis de inércia consideráveis que a crise vem pôr dramaticamente em causa. O predomínio do motor de combustão e da fantástica logística dos combustíveis fósseis - petróleo e, mais recentemente, gás natural - leva-nos a pensar e agir como se as alternativas fossem inexistentes. A crise desencadeou até a aposta da GM em motores eléctricos, a proliferação dos parques eólicos e a investigação e investimento nos mais diversos tipos de energias renováveis. Algumas previsões apontam para a capacidade de a energia solar satisfazer a totalidade do consumo mundial em menos de 15 anos. Um estudo do MIT sugere que o automóvel eléctrico terá uma presença dominante na cidade do futuro, absorvendo electricidade barata durante a noite e devolvendo à rede parte dessa carga durante o dia para benefício do maior preço durante o pico do consumo. Mais surpreendentemente, prevê que o automóvel deixe de ser privado para ser partilhado, à semelhança das actuais bicicletas de aluguer - Paris, Barcelona, etc.. No entanto, a dinâmica da mobilidade pode transformar-se drasticamente através do teletrabalho, da teleconferência e da preferência pelo consumo de produtos locais. Teoricamente, é possível que a riqueza cresça em coincidência com a redução do comércio.

A regulação, ou as suas limitações, tem sido alvo de numerosas críticas. Os escândalos da Enron e Worldcom do início do século antecederam acontecimentos ainda mais surpreendentes.

Como pôde a SEC americana deixar passar a fraude de Madoff durante tantos anos, quando as pirâmides de Ponzi são tão estudadas? Como podem ser autorizados níveis de secretismo diferenciados entre instituições financeiras, com os hedge funds quase isentos de prestar informação contabilística? Normas contabilísticas, regras de prudência financeira, papel dos bancos centrais ou dos reguladores sectoriais, todos sofreram alterações significativas com apelo generalizado ao reforço das suas competências.

Finalmente, ao nível empresarial verifica-se um amplo debate em torno da política de incentivos e da fiscalização dos actos de gestão. Admissão de administradores independentes com mais poderes é uma reivindicação paralela à da redução de mecanismos de remuneração com base na prossecução de objectivos que incentivam a atracção pelo risco e a opção por alternativas que podem conduzir à destruição maciça de valor. Mesmo o critério da maximização do valor para os accionistas é por vezes confrontado com a necessidade de prestar maiores contas aos restantes "stakeholders". A expansão da responsabilidade social nas empresas ou a integração de programas de ética nos currícula dos MBA revela essa situação.

Décadas de estabilidade e prosperidade constantes tornaram-nos complacentes, ameaçando a sustentabilidade dos negócios tanto ao nível financeiro como ambiental. 2008 registou a maior queda das emissões de CO2 dos últimos 40 anos. Talvez a crise nos ensine a crescer, sem agravar o consumo de recursos finitos.


Professor na ISCTE Business School
Esta coluna é publicada semanalmente às terças-feiras


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