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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 19 de Setembro de 2007 às 14:16

O elogio da mentira

As pessoas acreditam praticamente em tudo, desde que não seja verdade. E fazem bem. Já que a verdade é desinteressante, aborrecida, perturba o bom andamento das coisas e ensombra a vida. Pelo contrário, a mentira move multidões, empolga a opinião pública,

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As pessoas acreditam praticamente em tudo, desde que não seja verdade. E fazem bem. Já que a verdade é desinteressante, aborrecida, perturba o bom andamento das coisas e ensombra a vida. Pelo contrário, a mentira move multidões, empolga a opinião pública, anima a política, abastece os media, favorece os negócios.

Num tempo em que a imagem é tudo, em que importa mais a aparência do que a essência, em que o simulacro é mais determinante do que o real, só os fracos e inadaptados cedem à verdade. A mentira é o que faz mover o planeta.

É sabido como no mundo dos ricos e famosos o faz de conta vem com a condição. Os golpes promocionais, as historietas íntimas, os casos mundanos são fruto de elaboradas estratégias desenhadas por agências publicitárias e de marketing.

Mesmo os deslizes circunstanciais, esses inesperados choques com a realidade, depressa se transformam em oportunidades através de notáveis manipulações, recursos a brilhantes paradoxos e o sempre hábil uso da consfusão sistemática.

As celebridades alimentam com génio o mercado da mentira emocional, actividade fundamental nas nossas sociedades que muito anima a solidão e as existências banais. Sem isso a população estaria sujeita à profunda tristeza da verdade social. Quem aguentaria o trabalho, as más condições de vida, a prepotência, injustiça e miséria sem a companhia do brilho e do sorriso permanente de estrelas, ricos e poderosos?

Na política, a mentira é mais séria e rigorosamente organizada. Nem podia ser de outro modo pois é da sua natureza. Os políticos devem sempre dizer o que é necessário e não o que é verdadeiro. A política em tempo dos media deve ser simples, linear e sintética. A complexidade da verdade só poderia confundir as pessoas e levá-las à dúvida, o pior e mais perigoso dos estados mentais. Assim, o Governo diz sempre que está tudo bem e a oposição que está tudo mal e toda a gente fica satisfeita.

Na vida económica, a mentira também é a mais importante ferramenta da gestão. As mercadorias devem afirmar-se através da publicidade, sem a qual não teriam existência, e esta não pode senão exacerbar as qualidades e esconder os defeitos. Imagine-se que os produtores diziam a verdade sobre os seus produtos.

Seria o colapso da economia mundial. A quantidade de produtos que prejudicam a saúde, são desnecessários, poluentes, socialmente catastróficos e corruptores é imensa. Mas felizmente, como dizia Jorge Luis Borges, vivemos numa época extraordinária em que são os próprios fabricantes a enaltecer as qualidades dos seus produtos.

Do mesmo modo, as empresas não podem deixar de mostrar pujança e constante crescimento, mesmo que não seja real. A prestidigitação é hoje uma componente essencial de qualquer negócio. A bolsa não poderia funcionar sem um uso sábio e sistemático da mentira. Quanta miragem não se desvaneceria se a verdade fosse conhecida.

Quanto desgraça, fortuna perdida e miséria não lhe sucederia. Para bem da sociedade criaram-se importantes mecanismos de regulação que velam para que a mentira prevaleça sempre sobre a verdade e assim se proteja o nosso modo de vida e felicidade.

Definitivamente, a verdade não interessa à nossa sociedade. A mentira é muito mais sexy e positiva. Todos hoje sabemos como se caminha para uma grave crise ambiental. Mas mais do que verdades inconvenientes precisamos de acreditar que tudo se resolverá em regime de final feliz. "Eles" tratarão do assunto e é esse credo que me permite continuar a conduzir o meu carro, consumir o que me apetece, gastar recursos, enfim ser livre.

A mentira sossega. A verdade perturba. Veja-se George Bush, esse grande mestre, que todos os dias insiste que tudo corre muito bem no Iraque, quando pelas imagens tudo parece não poder correr pior. É um exemplo para o mundo.

Mostra como com coragem e determinação mesmo a mais negra das realidades se pode transformar num campo florido. Veja-se também a história desse casal de ingleses que tendo perdido uma filha em condições dignas de um thriller, em vez de chorar, logo se apetrechou de assessores de imprensa, idas ao Papa, apoios de governos.

Hoje já ninguém se preocupa com a verdadeira sorte da criança e corre para os telejornais para conhecer o próximo episódio de tão empolgante folhetim. Há que reconhecer que a verdade seria sempre chata e não teria audiências.

E que dizer desse treinador que supostamente deu um murro num jogador. O registo vídeo é gráfico e eloquente. Mas o que importa isso quando temos os mais notáveis dirigentes do futebol, destacados políticos e a vasta maioria do povo a garantir que o gesto nunca aconteceu? Segundo o próprio, o pretenso murro foi afinal uma carícia simpática e ainda para mais em defesa da pátria, aquela coisa que está muito por cima de qualquer verdade. De facto o homem é mesmo um herói do nosso tempo e um exemplo para a juventude.

A mentira é aquilo que garante a coesão social, a calmaria nas ruas e a felicidade do povo. Algum louco a quer trocar pela verdade?

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