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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 02 de Outubro de 2007 às 13:59

O emprego e o desemprego, hoje

Menos 300 despedimentos na EDP, mais 2.000 na PT. O sindicalismo está em crise de identidade, os lucros das empresas cotadas cresceram 24% no semestre. Nada disto causa grande comoção. É o noticiário do dia. “Business as usual.”

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A sociedade liberal impôs um paradigma: as empresas precisam de crescer continuamente para não perecerem ante a concorrência; para isso é preciso aumentar a produtividade minuto a minuto; há que secar custos e melhorar receitas, aumentando margens pelos efeitos de escala ou de especialização. Essa locomotiva imparável dita a necessidade de aumentos curtos dos salários e flexibilidade na contratação e na rescisão de pessoal.

Este discurso encurralou os sindicatos na defesa anacrónica do “posto de trabalho”. Explicando os cortes na PT, Henrique Granadeiro deixa claro o contradogma capitalista: ter menos emprego é opção a ter mais subemprego; e o subemprego leva à falência dos Estados ou das empresas – ao desemprego.

Ontem, Carvalho da Silva insistia que este paradigma neoliberal é publicidade enganosa. No 37º aniversário da CGTP-IN, explicava que a crise prolongada é uma invenção da elite capitalista portuguesa para justificar mais sacrifícios sociais em prol do aumento dos lucros particulares dessa mesma elite. E, continuava, a própria condenação popular dos sindicatos como factores de atraso de vida (na expressão do actual ministro da Economia, algures na China) parte dessa propaganda massiva, que pretende impor a convicção de que os trabalhadores têm de agradecer os aumentos-esmola anuais. A opção é sempre fechar as portas.

Carvalho da Silva está errado, porque não é possível tamanha arquitectura maniqueísta. Mas está certo quando diagnostica uma velocidade empresarial vertiginosa que deixa um lastro de cacos humanos atrás. O “darwinismo” empresarial deixou os trabalhadores no fim da cadeia alimentar. E o sindicalismo perdeu para as empresas, definitiva ou temporariamente, o poder de envolver os seus funcionários.

As multinacionais não fazem negociações, estabelecem parcerias; não têm trabalhadores, listam colaboradores; não cedem às greves, ameaçam com deslocalizações. É uma tendência mundial: os acordos fazem-se cada vez mais com as comissões de trabalhadores e menos com os sindicatos. Carvalho da Silva diz que essa é a armadilha neoliberal, que está a verticalizar as relações laborais e a impor a posição corporativa. É mais fácil para as empresas negociarem desse modo. Foi assim na Autoeuropa e na Azambuja, com resultados excelentes na primeira e catastróficos na segunda. Na Modelo Continente, o maior empregador privado do País, não consta que haja movimentação sindical (Belmiro de Azevedo ainda há-de explicar como conseguiu durante décadas neutralizar as sublevações laborais). O patrão da Jerónimo Martins diz que os sindicatos já não servem para nada, gabando-se dos acordos que fez depois de três anos de negociações – este ano vai aumentar o “ordenado mínimo” no grupo para 500 euros.

O mundo deixou os sindicatos para trás. Mas a globalização também deixou trabalhadores para trás. O Governo, investido da missão de dinamitar os subsídio-dependentes, criou um estado policial de apresentação de desempregados nos centros do IEFP e de aceitação obrigatória de propostas disponíveis.

Isto faz sentido? Faz. É justo? Não. Mas o liberalismo não tem obrigações morais.

 

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