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Armando Moreira 03 de Agosto de 2006 às 13:59

O factor trabalho

Quando surgem notícias sobre o encerramento de fábricas, seja de têxteis ou de automóveis, ninguém consegue ficar indiferente. Todos acompanhamos a angústia que se apodera de cada um dos trabalhadores que,...

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Todos acompanhamos a angústia que se apodera de cada um dos trabalhadores que, de um momento para o outro, se vêem desprovidos dos seus meios de subsistência.

Isto que agora se está a passar com o previsível (ou já certo) encerramento da fábrica da Opel na Azambuja, é paradigmático do comportamento que os diversos actores devem ter num processo destes.
A primeira advertência, para todos, é que já não há empregos para toda a vida (excepto no Estado), sendo por isso prudente acautelar o futuro, o que passa muitas vezes pelo nosso comportamento individual no mundo do trabalho.

No Estado é que o emprego é ainda para toda a vida. Não o trabalho. Porque mesmo que não exista trabalho, o vencimento cai certinho ao fim de cada mês. Resulta isto da Constituição de 1976, que os nossos deputados estoicamente se comprometem a manter. Do ponto de vista da justiça social é um princípio inatacável. Mas, visto sob o prisma da eficácia e da sustentabilidade económica é uma irracionalidade.

A modernização do aparelho do Estado consente, diariamente, admitir a libertação de recursos humanos. Pelo que ou aos funcionários é permitido trabalhar menos horas, ou então consente-se que andem pelos corredores a conversar, a divertir-se, ou, pura e simplesmente a « baldar-se». Toda a gente sabe que é assim, mas não se quer assumir, porque é sempre mais cómodo fechar os olhos.

Porém, o Estado tem as costas largas, e os ministros das Finanças, por maior que seja a sua vontade - como foi o caso da Dr.ª Manuela, do Dr. Bagão e é, agora, do Dr. T. Santos -, acabam por esbarrar sempre na inconstitucionalidade das leis, o que permite que se continuem a pagar (do bolso dos contribuintes) salários a uma multidão que não faz rigorosamente nada. E isto também não é justo!

Nas empresas, contudo, a coisa é diferente. Porque não há «bolsa sem fundo», como acontece com o Estado, e alguém, no final do mês, tem que ir saber à tesouraria se há dinheiro para liquidar os compromissos assumidos. E só há uma solução para isto acontecer: haver produtividade. Tem que ser a produção a garantir a sustentabilidade das empresas. Dêem-se as voltas que se derem. O capital pode «aguentar» apenas temporariamente. Tem que ser o outro factor de produção - o trabalho - o garante do salário no final de cada mês.

Futuro nas mãos dos trabalhadores

Espanta-nos, por isso - e esta é a lição para todos aqueles que vivem de um salário sem serem funcionários públicos -, que as Comissões de Trabalhadores, sobretudo nas grandes empresas - como é a Opel, a Autoeuropa, ou a canadiana Bombardier -, cuidem apenas de puxar pelo casaco ao patrão (multinacionais), exigindo cada vez mais salários, direitos e regalias, não se empenhando em acompanhar o desempenho da empresa. Até porque o desempenho depende cada vez mais do factor trabalho do que do factor capital - este cada vez mais fácil de encontrar nas entidades financeiras, que existem para isso mesmo, ou seja, para financiar bons projectos.

O bom desempenho da mão-de-obra é que é hoje essencial para o sucesso dos empreendimentos. Assegurar esse bom desempenho deveria ser o primeiro objectivo das Comissões de Trabalhadores, às quais incumbirá também acompanhar a performance da gestão e tentar perceber onde é que esta eventualmente se revela menos capaz - não para a atacar, mas sim para a ajudar!

Comportamentos como aqueles que temos visto, via TV, dos representantes dos trabalhadores da Opel, aconselhando apenas à greve e ao boicote às decisões da Administração, em nada vão contribuir para a resolução dos problemas. Por seu turno, o Governo não pode, nem tem meios para se substituir às administrações das empresas. Pelo que os trabalhadores apenas se podem queixar dos seus dirigentes sindicais. E se, no caso da Opel, já nada há a fazer, sirva este exemplo para outras empresas onde ainda se está a tempo de atalhar caminho. Um caminho que está muito mais na mão do trabalhador do que na do empresário. É bom que tenhamos a noção disto.

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