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O futuro como motor

Nas empresas, o futuro é também a principal matéria-prima. Hoje uma empresa que não pense o futuro está condenada ao fracasso. A competição, feroz, depressa as tornará obsoletas. Daí que as mais atentas e ambiciosas venham criando gabinetes de visionários.

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O presente dececionante potencia ainda mais a ideia de futuro como centro das vidas, da cultura e da sociedade em geral. Só do futuro nos vêm boas notícias e promessas de felicidade. Ainda que também nos cheguem as grandes e prometidas catástrofes. De qualquer modo a ideia de futuro como motor domina o essencial da atividade humana de hoje.

Na tecnologia isso é uma evidência. Ao contrário do passado em que uma nova tecnologia se apresentava como duradoura, onde um carro ou uma máquina de lavar a roupa eram para a vida, hoje a inovação tecnológica é à nascença transitória e mutante. Cada novo telemóvel ou programa de computador promete já o próximo para daqui a alguns meses. Ou seja, sendo tudo temporário e de curta vida, é o futuro que se anuncia. Futuro esse que determina a própria evolução da criatividade tecnológica. Nomeadamente a ficção científica, futurista por natureza, é hoje uma fonte de inspiração da universidade, dos investigadores e das empresas. Temos assim na genética as promessas da vida eterna, nas biotecnologias a substituição da evolução natural por uma evolução artificial, na engenharia a criação de máquinas inteligentes e autónomas, no espaço a colonização da Lua, de Marte e adiante. Neste campo são já várias as empresas que se propõem construir colónias no espaço e têm em curso o recrutamento de colonizadores.

Nas empresas, o futuro é também a principal matéria-prima. Hoje uma empresa que não pense o futuro está condenada ao fracasso. A competição, feroz, depressa as tornará obsoletas. Daí que as mais atentas e ambiciosas venham criando gabinetes de visionários que se concentram "naquilo que podia ser" em vez no "aquilo que é" para usar a célebre frase de Christopher Langton.

Na política, o futuro é igualmente dominante em muitos aspetos. Basta pensar no caso português e como a Direita promete agora um amanhã que canta quando a Troika se for embora, enquanto o PS assenta toda a sua estratégia na reconquista do poder lá para o longínquo 2015. Só a restante Esquerda parece continuar a viver no passado e para o passado, tornando-se na realidade a grande força do conservadorismo atual.

Por sua vez, as cidades mais fulgurantes, como sucede no Dubai ou em Xangai, parecem saídas do filme Blade Runner. As imagens são tão fascinantes quanto surpreendentes dando origem a uma nova economia e a um novo turismo que tem o futuro como base promocional.

Na arte, que é aquilo que domino melhor, apesar da forte resistência conservadora vão surgindo movimentos de apropriação das tecnologias para produção de novos tipos de arte mais conformes ao nosso tempo. A ideia de representação que ainda predomina naquilo que se continua a chamar arte contemporânea, mas é na verdade já uma arte antiga, é substituída pelas questões do processo onde importa menos criar objetos e sim inovadoras maneiras de os gerar. Onde a influência da inteligência artificial ou das biotecnologias vêm suplantar a destreza manual e a trivial expressão emocional.

O futuro é assim o grande motor da nossa época. Quer nos seus aspetos positivos quer mesmo nos negativos, já que a consciência dos perigos permite antecipar algumas soluções. Coisa que sucede, por exemplo, nos campos do ambiente, da vida natural que ainda resta, na agricultura, na questão da pobreza, no problema do crescente desemprego motivado pela automação, na gestão das grandes urbes, na educação, na ética e em tantos outros campos.

Ou seja, mesmo que sejam previsíveis algumas nuvens negras, não pensar o futuro, não querer fazer parte dele, é, esse sim, o caminho certo para o desastre ou pelo menos para a irrelevância. É nesta convicção que tenho vindo a propor, sem grande sucesso diga-se de passagem, que o futuro se torne objeto permanente de estudo e de ação, nas empresas, no ensino e em geral em toda a atividade criativa. Considero mesmo que as escolas e as universidades deviam criar cursos exclusivamente dedicados ao futuro. Faltam, por exemplo, em Portugal centros de análise de tendências. Enfim, ou temos futuro ou não temos nada.

Artista Plástico

Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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