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Negócios negocios@negocios.pt 16 de Julho de 2001 às 11:32

«O Governo das Sociedades»

A globalização e a constante inovação tecnológica garantem por si que um bom governo das sociedades continuará a ser um aspecto fundamental do mundo empresarial nos próximos tempos.

Jorge Pichel, Deloitte & Touche

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A globalização e a constante inovação tecnológica garantem por si que um bom governo das sociedades continuará a ser um aspecto fundamental do mundo empresarial nos próximos tempos. Apenas aqueles que jogarem de acordo com as regras terão acesso ao capital global.

Portugal, com a internacionalização do capital a sofrer novo impulso com a introdução do Euro, não se pode alhear desta problemática. A CMVM numa das suas recomendações, alerta as empresas Portuguesas cotadas na bolsa, para esta questão.

Mas afinal do que se trata quando se fala em Governo das Sociedades?

Muitos ainda pensam que se trata apenas de mais uma teoria económica que rapidamente passará de moda e da qual nunca mais se ouvirá falar. De facto, já muito se escreveu e teorizou sobre este tema. Teoria não falta. No entanto, o que tem resultado da adesão aos princípios de Corporate Governance são aspectos muito práticos e pragmáticos.

Um recente inquérito efectuado por uma conhecida empresa, que obteve resposta de cerca de 200 Investidores Institucionais, que em conjunto administram aproximadamente US$3.25 triliões de activos, vem revelar alguns aspectos importantes, dos quais salientamos:

- Três quartos dos Investidores afirmam que boas práticas e condutas das Administrações são, para eles, pelo menos tão importantes quanto o desempenho económico e financeiro das empresas, quando tomam a decisão de investir.

- Mais de 80% dos Investidores afirmaram que estão dispostos a pagar mais pelas acções de uma empresa “bem governada” do que de uma empresa “mal governada”, e com um desempenho financeiro semelhante.

- O prémio a pagar, resulta ainda do inquérito, varia de país para país. Por exemplo no Reino Unido seria de 18%, em Itália 22%, na Venezuela e na Indonésia, 27%.

A mensagem parece clara. Os Investidores Globais têm em conta o Governos das Sociedades quando tomam decisões de investimento e parecem estar dispostos a pagar mais pelas acções de uma empresa bem governada. A ligação entre Bom Governo e Bom Desempenho (Good Governance – Good Performance), parece evidente.

Quando falamos de Governo das Sociedades e, se quisermos usar uma linguagem simples, podemos dizer que estamos a referirmo-nos a “ como as pessoas usam o poder que têm” nas empresas.

Os princípios fundamentais dum bom governo das empresas podem, igualmente, resumir-se a:

Responsabilidade sujeita a prestação de contas. É da responsabilidade das administrações, das direcções das empresas, garantir que os seus representantes aos mais variados níveis, respondem pelas acções e decisões que tomam. Responsabilidade significa a presença clara de uma segregação de responsabilidades e de tomada de decisões em todos os níveis de autoridade.

Equidade Cada membro do “Board” na terminologia anglo-saxónica, deve agir honestamente e de boa fé, com lealdade e no melhor interesse da empresa, dos accionistas e dos outros investidores. Enquanto tal, deve sempre promover os interesses dos accionistas , respeitando igualmente os direitos dos outros interessados, tais como clientes, fornecedores, bancos, etc. O princípio da equidade constrói-se com base na confiança recíproca e no respeito pela confidencialidade.

Transparência Este terceiro elemento tem a ver com a disponibilidade de acesso a dados e informação relevantes para uso interno e externo. A produção de relatórios e informação financeira credível e atempada são um factor chave quando falamos de Governo das Sociedades. O grau de desenvolvimento das tecnologias de informação, fazem com que a obtenção e a distribuição da informação sejam, nos tempos que correm, uma tarefa fácil. Contudo, a disseminação de informação em abundância, mas sem conteúdo significativo, não melhora a transparência. O que se torna importa é que os relatórios sejam relevantes e de fácil leitura e compreensão.

A adesão convicta aos princípios do Corporate Governance , dará às empresas Portuguesas a necessária capacidade e flexibilidade para resistirem a crises e responderem rapidamente às oportunidades que se vão criando.

Uma das lições fundamentais que resultaram da ainda recente crise Asiática, segundo as palavras do Governador do Banco Central das Filipinas, foi a de que se queremos evitar futuras crises no crescente cenário da globalização da economia, teremos de melhorar e acelerar, a nível empresarial, a adesão aos princípios do Governo das Sociedades.

Jorge Pichel

Partner

jorge.pichel@mail.deloitte.pt

 

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