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João Carlos Barradas 03 de Fevereiro de 2015 às 20:30

O grego e a bondade alheia

Acrobacias retóricas, ameaças e votos de boas intenções marcam as manobras de abertura de Alexis Tsipras nas negociações com credores pouco dados ao trato com desengravatados da extrema-esquerda.

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Atirando o barro à parede, o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, insinuou a possibilidade de o BCE converter 27 mil milhões de euros de títulos de dívida em "obrigações perpétuas", sem maturidade pré-estabelecida.

 

Prometendo excedentes orçamentais primários (excluindo serviço de dívida) entre 1% e 1,5% do PIB, Varoufakis aventou, ainda, proteger os interesses dos investidores privados (detentores de 17% do total da dívida) por via de outras operações de troca que levariam demais credores e parceiros do euro a indexarem prazos de pagamentos e juros ao crescimento nominal da economia grega. 

 

A calculada moderação

 

Salvaguardando o vice-primeiro-ministro Yannis Dragasakis para as negociações com a troika, Tsipras e Varoufakis tentaram promover uma imagem de moderação deixando cair exigências maximalistas de novo perdão de dívida.

 

O executivo do Syriza, sem contestação aparente dos parceiros Gregos Independentes, compromete-se a honrar os compromissos com o FMI (19,4 mil milhões de euros a pagar em 2019 e 6,4 mil milhões de euros entre 2020 e 2024) e o BCE (aproximadamente 50 mil milhões de euros conjuntamente com os bancos centrais da eurozona).

 

Dos 315,5 mil milhões de euros de dívida, o governo de Tsipras procura aparentemente isolar 141,8 mil milhões de euros detidos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) e 52,9 mil milhões de euros em dívidas bilaterais a países da eurozona para negociação.

 

Um período de carência até 2023, juros (0,2% ano) e prazos de pagamento (32 anos em média) excepcionalmente favoráveis a Atenas por parte do FEEF tornam, contudo, extremamente difícil admitir, após dois resgates, novas cedências à Grécia.   

 

O financiamento de emergência do Banco Central de Atenas a bancos com escassez de liquidez e carentes de garantias, mediante aprovação do BCE, tem, entretanto, reduzido o impacto dos levantamentos de depósitos (cerca de 11 mil milhões de euros em Janeiro a somarem-se a 4 mil milhões de euros em Dezembro), mas está dependente de um acordo no final deste mês sobre novos prazos para conclusão do segundo plano de ajuda à Grécia.

     

Falta de programa

 

Depois de suspender privatizações, anunciar aumento de despesa (incluindo justificados programas de subsídios a pessoas em situação de pobreza) prometer combate à evasão fiscal (mantendo silêncio sobre o estatuto de isenção da Igreja Ortodoxa, o maior proprietário imobiliário do país), Tsipras e os seus não adiantaram, contudo, iniciativas para a alegada promoção do crescimento económico por parte do Estado. 

 

A mão direita do governo, o nacionalista xenófobo Panos Kammenos, visitou Imia - Kardak para os turcos que disputam com os gregos a soberania da desabitada ilhota do Mar Egeu - no seu primeiro acto como ministro da Defesa deixando claro que as forças armadas não desarmam no confronto com Ancara.

 

Panagiotis Lafazanis - ministro da reconstrução produtiva, ambiente e energia - luziu, por sua vez, as credenciais de timoneiro da ala mais extremista da Coligação de Esquerda Radical ao declarar-se oposto a sanções da UE à Rússia.

 

Sinais de um programa de reformas que sustente a concretização ou revisão do segundo plano de ajuda não se vislumbram, deixando assim sem fundamento a ideia de que a Grécia possa continuar a gerar excedentes orçamentais primários.

 

Duche frio

 

Os líderes do Syriza fazem por ignorar os condicionalismos políticos nos demais países da União Europeia opostos a um estatuto privilegiado para a Grécia, considerando apenas ventos favoráveis a movimentos como o Podemos em Espanha.

 

A 15 de Fevereiro terão o primeiro duche frio quando as eleições na cidade-estado de Hamburgo, governado pelo Partido Social-Democrata, confirmarem o aumento da votação dos eurocépticos da Alternativa para a Alemanha.

 

A votação alemã será tida por muitos governos como o primeiro sinal dos riscos que cedências sem garantias possam apresentar.

 

Ainda antes das eleições finlandesas de 19 de Abril cada vez mais gente andará perdida no labirinto grego onde sem consensos políticos não haverá qualquer saída para programas viáveis de reformas.    

 

Pouco falta para os radicais gregos perceberam que, afinal, sempre dependeram da bondade de estranhos.          

   

Jornalista

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