Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 25 de janeiro de 2016 às 11:05

O Inferno da bolsa portuguesa e do BCP

A culpa dos investidores estarem a perder dinheiro na bolsa é deles. Só investiram porque quiseram e a maioria continua agarrada a títulos que há muito tempo deram sinais de fraqueza.
O arranque de 2016 está a ser um verdadeiro pesadelo para os accionistas da bolsa portuguesa. Dias de autêntica sangria, com algumas acções a sofrerem desvalorizações violentíssimas. Infelizmente, este cenário não é exclusivo do ano presente e o PSI está a apenas a menos de 10% do mínimo dos últimos 20 anos. Sim, 20 anos!

Para quem acompanha com regularidade este espaço de opinião, isto não é propriamente uma surpresa. Há muitos meses que os sinais negativos se acumulam, a tendência descendente é uma realidade demasiado evidente e o "Bear Market" tem vindo a mostrar-se suficientemente poderoso para fugirmos da sua frente. Claro que há sempre uns heróis que têm tentado adivinhar o fundo, apanhando facas a cair, mas os seus dedos vão ficando em sangue e a sua moral em baixa. Tal como a sua carteira.

Alguns têm apontado algumas medidas do actual Governo (bem como do Banco de Portugal, acrescento eu) para justificar as quedas violentas na bolsa portuguesa. Não posso negar que acredito que isso tenha contribuído, até porque os investidores estrangeiros vendem primeiro e procuram explicações depois. Mas, tal como referi, o problema não é conjuntural mas sim estrutural e o facto de estarmos quase em mínimos de 20 anos, atesta bem esse facto.

A recessão que a economia portuguesa viveu é um dos factores decisivos para o péssimo desempenho do nosso mercado accionista. Mas as decisões recentes sobre o sector bancário criam um desconforto e um risco excessivo a quem quer investir no mercado português e vieram agravar a frágil situação da nossa bolsa.

E que Governos portugueses, nos últimos 20 anos, tiveram verdadeira preocupação com o mercado de capitais? Nenhum. A ideia do mercado de capitais como fonte financiadora de novas empresas nunca passou do papel. A admissão de uma empresa à bolsa exige requisitos tão apertados que exclui, logo à partida, inúmeras empresas e os incentivos à entrada de novas empresas não existem. Chegámos à actual situação de um mercado fantasma onde há meses temos um índice que de 20 só tem o nome. Um dia, os responsáveis políticos nacionais perceberão que o mercado de capitais pode ser uma fonte de impulso à economia. Um dia. Porque, na actual conjuntura política, falar-se de bolsa é quase como falar-se do Diabo em frente ao altar.

Mas a culpa dos investidores estarem a perder dinheiro na bolsa portuguesa é deles e não de mais ninguém. Só investiram porque quiseram e a maioria continua agarrada a títulos que há muito tempo deram sinais de fraqueza. Muitos deles vivem da esperança, esse sentimento que costuma ser fatal para os investidores. Se hoje tivessem dinheiro, comprariam acções? Provavelmente não. Então porque continuam agarrados a elas?

O BCP é, provavelmente, o melhor exemplo desta situação, pelas quedas violentas e por ser detido por milhares de pequenos accionistas que continuam agarrados às suas acções, sobretudo com base num sentimento fatal em bolsa: a esperança. Nos últimos meses, os sinais de fraqueza, acumularam-se e fechar os olhos a isso é não querer ver o problema e, muito menos, tentar resolvê-lo. O BCP já não está muito longe do seu mínimo histórico e a entrada da acção em bolsa aconteceu ainda na década de 80!

O afundar do BCP para valores muito próximos do zero faz com que muitos comecem a especular sobre um novo Banif, fazendo comparações entre os dois bancos. Apesar de continuar pessimista, enquanto o BCP não der sinais de força, não aceito esse paralelismo. É bem verdade que o grande desafio do BCP, tal como era o do Banif, é gerar receitas que permitam pagar os Coco's e evitar que o Estado fique com uma posição no banco, mas as diferenças entre ambos são evidentes. Era virtualmente impossível ao Banif gerar receitas para cumprir esse compromisso, algo que no BCP é difícil mas não impossível. Além disso, já não era possível recorrer a mais aumentos de capital no Banif para solucionar esse problema, enquanto no BCP essa solução - apesar de indesejada - ainda poderá ser usada.

Enquanto a possibilidade de um aumento de capital estiver em cima da mesa, a cotação naturalmente que está pressionada pois essa operação afundaria ainda mais o papel. Dizem os críticos que Nuno Amado já deveria ter vindo a terreiro afirmar que não haverá aumento de capital mas ele não pode fazer isso, pois pode ser necessário recorrer a uma operação usada abusivamente ao longo dos anos pelo BCP.

É evidente que os accionistas do BCP podem criticar Nuno Amado, o Banco de Portugal, a Comissão Europeia, mas os responsáveis por serem accionistas do BCP e estarem a sofrer fortes perdas são apenas eles mesmos. A atracção pelo abismo - pelas acções que não param de cair - tem sido uma das perdições dos pequenos investidores. Parece impossível caírem mais, mas isso é apenas uma ilusão porque há sempre um algarismo abaixo e uma casa decimal a mais. Ou será que alguém, no último ano, investiu no BCP pela fantástica qualidade da sua gestão?

Investir a favor da tendência pode ser aborrecido e intelectualmente pouco estimulante mas continua a ser uma das regras de ouro nos mercados financeiros. Infelizmente, a adrenalina e a ilusão do "barato" fazem com que a maior parte dos pequenos investidores faça exactamente o oposto. Como diria Fernando Braga de Matos "Negociar contra a tendência é como mijar contra o vento".

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