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António Mateus antoniomateus@hotmail.com 07 de Julho de 2005 às 13:59

O mal da semente

«Ora se em Portugal se chega ao poder através de promessas impossíveis de cumprir, por políticos que uma vez no governo, as trocam pelo trajecto que condenaram no anterior, que diferença faz, virem estes aqui, dizer que o mal está na semente e não no frut

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Antoninho olha através da janela enquanto os políticos, sentados próximo, vão articulando palavras, entre meia dúzia de escribas que tiram notas, seguram microfones ou filmam o evento, para uma posteridade qualquer.

O menino é o adereço de uma conferencia de imprensa, dedicada ao problema da educação, num país africano lusófono, cujo nome não é para aqui relevante.

Podia ser em qualquer um deles. Ou, preferivelmente, em nenhum. Mas, verdade verdadinha, aconteceu mesmo, tal como a vida do Antoninho.

A boca da ministra vai libertando palavras, redondas, quais bolas de sabão, que ficam a pairar no ar, agarrando, num arco-íris, a nossa imaginação.

Perenes, frágeis. Mas que interessa isso, se por cada uma que rebenta, pelo menos outra se enche renovando o ciclo e a vertigem anotadora dos escribas.

«O demónio do colonialismo, esse crime contra a humanidade...» e lá vai ela em roda livre, animada pelo menear concordante das caixas craneanas, do seu séquito ministerial e dos agentes da polícia do pensamento.

Antoninho limpa as palmas suadas das mãos àqueles farrapos que já terão sido calças, certamente noutro corpo. Não no dele, que não foi feito para estrear roupas, ou conheceu outras que por tal passassem.

A atenção mora-lhe naquele pássaro pousado na janela, que vai limpando as penas azuis da cauda, com um bico longo, roxo, encurvado na ponta, e prossegue depois a higiene, corpo acima.

«...é por causa do colonialismo que meninos como este nem uma carteira têm para se sentar nas escolas...» – e lá vai ela, de espada em punho, corcel esporado, trucidando fantasmas de um castelo desmoronado há três décadas.

Alguém destoa no pelotão de escribas, provocando o escândalo na sala.

Comentários desaprovadores a granel. «Senhora ministra?desculpe?mas que idade tem esse menino?o Antoninho?» – pergunta um jovem jornalista português. Branco. Duplo pecado.

Ouve-se um rumorejar condenatório na sala. Os escribas, laterais, afastam-se para o bordo exterior das respectivas cadeiras. Excomungando assim, corporativamente, o inquiridor, que volta ao ataque:» Senhora ministra. Importa-se de responder ao que lhe perguntei?».

Silêncio...um dos comissários políticos chega-se à frente e tenta esvaziar a tensão...»mas porquê...a sua pergunta...qual a relevância da idade do rapaz, no que nos trás aqui?» – e ri-se, arrastando toda a sala, numa gargalhada nervosa.

Todos, escribas incluidos, sorriem. Todos, menos o Antoninho. E o jornalista. E a ministra repara finalmente. Na inesperada ponte, entre os dois extremos. Entre os dois silêncios.

«Porquê a sua pergunta?» – dispara ela, somando-se agressiva para o tuga branco sentado à sua frente. O jornalista sustem a respiração mas o Antoninho larga o pássaro, da janela, e volta à sala: « Tenho 14 anos. Ou melhor, faço-os amanhã!» – exclamou o rapaz, sentindo-se pela primeira vez, parte da conversa.

Todos os olhos se viram para o tuga, que sente a pressão: «...eu...é só que não percebo senhora ministra...então a independência do país já aconteceu há mais do dobro da idade do rapaz, do Antoninho, e a senhora diz que a culpa de ele não ter bancos na escola é ainda do colonialismo?dos portugueses?é só isso que eu não percebo...» - consegue ainda articular antes de se esvaziar o ultimo gás na sua voz.

O tuga branco é fuzilado com os olhos de todos os ângulos possíveis na sala.»Ah! Você é um confusionista! É um desses. Você vem p´ráki arranjar confusão!» – atira-lhe um dos Excelências sentado ao lado da ministra, que arredonda ainda mais a cara luzidia, num sorriso de recém-salva.

«Só você pelos vistos é que não percebeu nada do que se falava nesta sala» – acrescenta ela, empinando o nariz arrebitado.»O mal que os portugueses nos deixaram não acabou no dia da independencia. Está aí até hoje. Deixado na terra como sementes de erva daninha. Por muito que a gente as mate e arranque, continuam a nascer».

Os escribas aceleravam na perpetuação daquele momento de lucidez imperdível, que comovia até ao humedecer dos olhos, o pelotão de balalaicas, formado na aura da ministra.

«Foram vocês quem nos ensinou a destruir, a não dar valor. Quando vocês se foram embora, partiram tudo, sabotaram tudo, queimaram tudo, até cimento despejaram nos esgotos da cidade. Foi esse o exemplo que deram aos nossos jovens. E agora quem vir dar-nos lições de moral!».

O comissário Macuácua não conseguiu aguentar mais. As palmas e diversos «muito bem» sairam-lhe de rompante, como água de uma comporta arrombada. De repente, o jornalista tuga, branco, era sorvedouro e o primeiro bode espiatório, da nova versão da História oficial. Do novo país.

«E porque não?» Pensou ele. «E porque não? Até que isto faz algum sentido, mesmo que não o faça. Mesmo que seja o escapismo mais delirante, à incompetência ou impotência de quem sucedeu ao colonialismo».

«Ora se em Portugal se chega ao poder através de promessas impossíveis de cumprir, por políticos que uma vez no governo, as trocam pelo trajecto que condenaram no anterior, que diferença faz, virem estes aqui, dizer que o mal está na semente e não no fruto?».

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