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Glória Rebelo 30 de Abril de 2007 às 13:18

O mundo não pára

Enquanto em Portugal se mergulhava - durante quase dois longos meses - numa onda paralisante e atrofiante de fait-divers políticos, onde se escrutinou de forma pormenorizada (e inusitada) o percurso académico do primeiro-ministro, José Sócrates, além-fron

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Enquanto em Portugal se mergulhava - durante quase dois longos meses - numa onda paralisante e atrofiante de fait-divers políticos, onde se escrutinou de forma pormenorizada (e inusitada) o percurso académico do primeiro-ministro, José Sócrates, além-fronteiras o mundo não parou.

Aliás o "mundo não pára" é uma frase actualmente muito ouvida, que reflecte bem as dinâmicas que, um pouco por todo o planeta, se vão sucedendo.

Por exemplo, em Abril, na Ásia - e depois do episódio marcado pela notícia de que os EUA anunciavam duas queixas contra a China na Organização Mundial do Comércio, uma sobre o desrespeito pelos direitos de autor e outra sobre as barreiras que, segundo os EUA, a China coloca à entrada no seu mercado de bens culturais (livros, discos e filmes estrangeiros) - foi notícia de relevante interesse político a visita do primeiro-ministro chinês ,Wen Jiabao, ao Japão.

No intuito de "refundar" relações bilaterais e de "quebrar algum gelo" entre os dois Estados, a deslocação de Wen Jiabao traduziu-se numa indicativa missão diplomática que visou, essencialmente, estreitar os laços económicos com este país vizinho e explorar - numa lógica de proximidade territorial - ligações económicas e de negócio.

Seguindo - no âmbito de conjunto de iniciativas gizadas para a denominada "3ª geração reformista" - uma política de "emergência tranquila" no plano externo, as autoridades chinesas prosseguem uma intensa acção diplomática junto de alguns países com os quais pretendem fortalecer relações bilaterais.

E o Japão parece ser um destes países. Acresce que a visita de Wen Jiabao demonstrou que as relações de negócios entre os dois gigantes asiáticos são, efectivamente, intensas.

Como se sabe, desde que a China se tornou uma das principais economias mundiais

(ocupa, de momento, o 4º lugar no ranking mundial das potências económicas, sendo previsível que, em 2008, ultrapasse o PIB alemão, ficando apenas atrás dos EUA e do Japão), converteu-se, paralelamente, num dos maiores mercados consumidores do mundo.

E se durante algum tempo a China foi importante fornecedora de matéria-prima para a indústria japonesa, procura agora - no propósito de alimentar o desenvolvimento de áreas tecnológicas e de investigação, em particular o sector automóvel - assegurar o acesso a fontes de energia e a matérias-primas fora do seu território.

Além disso, e uma vez que a China, por necessidade, se tornou um país grande consumidor de todas as espécies de produtos, desde o minério até aos telemóveis, esta nova etapa marcada pelo reforço das relações negociais mostra-se reciprocamente positiva.

Em Portugal, em 16 e 17 de Abril último, foi igualmente notícia de relevante interesse político a IX Cimeira Luso-Marroquina e a visita do primeiro-ministro, José Sócrates, a Marrocos.

Há muito que Marrocos defende a sua aspiração legítima em obter um estatuto avançado nas suas relações com a União Europeia (UE). Ora a Presidência portuguesa da União, no segundo semestre deste ano, pode constituir uma oportunidade para o estreitamento das ligações entre este país e a UE.

Além disso, numa "lógica de proximidade territorial" não podem ser negligenciadas as ligações económicas e de negócio entre Portugal e Marrocos.

É sabido que Marrocos, também pela sua proximidade, tem suscitado grande interesse junto do sector empresarial francês e espanhol e, em menor escala, do português.

Por exemplo, em Março deste ano, a propósito da VIII Cimeira Hispano-Marroquina, Rodríguez Zapatero e oito ministros - dos Negócios Estrangeiros, da Justiça, do Interior, do Fomento, da Educação, do Trabalho, da Indústria e da Agricultura - discutiram em Rabat temas como a imigração, o terrorismo e as relações económicas.

Sabendo-se que um dos objectivos do mundo empresarial espanhol é o de aumentar a presença comercial espanhola no país magrebino, o Governo espanhol - que se fez acompanhar de empresários ligados, nomeadamente, à construção, à alimentação e ao têxtil - quis aproveitar esta Cimeira para intensificar a cooperação económica com Marrocos.

Refira-se, aliás, que - à semelhança do que tem acontecido com as exportações francesas - as exportações espanholas para Marrocos cresceram 15% em 2006, tornando-o o primeiro mercado em África.

Identicamente, no que respeita ao investimento, Espanha é - a seguir a França - o país europeu com mais investimento em Marrocos, com cerca de 500 empresas instaladas no país (note-se que, a título de exemplo, a Caja Mediterráneo acaba de entrar na compra de 5% do Banque Marocaine du Commerce Extérieur, o segundo grupo bancário privado de Marrocos).

Assim - e uma vez que para Portugal e Marrocos, no âmbito da actual política económica, um dos objectivos prioritários é atrair investimento produtivo -, a assinatura em Rabat, entre José Sócrates e o seu homólogo Driss Jetou, de um acordo para a duplicação do valor da linha de crédito de apoio a projectos de investimento em infra-estruturas, e, ainda, de acordos na área financeira, e de cooperação nas áreas do ambiente, obras públicas, transportes marítimos e aéreos, e cultura, evidenciam um notório reforço na cooperação económica bilateral.

Neste sentido, esta IX Cimeira Luso-Marroquina pode já significar o início de uma nova etapa nas relações entre os dois países.

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