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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 22 de Abril de 2008 às 13:59

O nosso “subprime”

Os pacotes de viagem para o Brasil e outros destinos mais ou menos exóticos continuam a esgotar-se, como ficou evidente na época da Páscoa. As casas (sobretudo as de luxo) continuam a vender-se, mesmo na planta. Certo?

Sim e não. O sucesso de algum turismo de viagens, do imobiliário de gama alta e dos bens de luxo diz menos sobre a saúde geral da economia do que sobre o “gap” de rendimentos crescente que existe na sociedade portuguesa. Se uns poucos podem consumir cada vez mais, a grande maioria tem de esticar os ordenados para chegar ao fim do mês.

Desde que em Agosto “estourou” nos Estados Unidos a monumental bolha imobiliária que deu origem à agora famosa crise do “subprime” que se discute o seu impacto em Portugal. Governantes e banqueiros começaram por rejeitar os riscos de contágio. Meia dúzia de meses passados, apenas os primeiros continuam a negar a evidência. Gestão das expectativas “oblige”. Os banqueiros, por seu lado, já se renderam e, estando o sistema financeiro na origem da crise, passaram a assumir a gravidade da mesma e a inevitabilidade do seu impacto em Portugal, embora rejeitando a exposição da banca portuguesa aos instrumentos financeiros que estão a gerar perdas recordes nos congéneres norte-americanos e europeus.

O Governo deu, aliás, o primeiro sinal de que está preocupado como o aumento do preço do dinheiro e com o seu impacto nas famílias de menores rendimentos quando anunciou a intenção de alargar até 50 anos o prazo dos empréstimos de crédito à habitação bonificado. Para além de contribuir para resolver casos concretos, mesmo tendo como efeito colateral o aumento do custo final da casa, a medida vale sobretudo como um reconhecimento do que José Sócrates e Fernando Teixeira dos Santos se têm recusado a admitir. Que a economia portuguesa vai crescer menos do que as previsões do Governo.

É que o fica evidente também com os últimos dados do Banco de Portugal ontem divulgados. Nos grandes números, o crédito malparado tem vindo a subir, mas em percentagem do crédito concedido mantém-se num valor ainda aceitável de 1,8%.

Quando se analisa por segmentos e na avaliação mensal acendem-se os sinais de alarme. O incumprimento no crédito ao consumo cresce duas vezes mais do que os novos empréstimos e a taxa final é de 4%. E na análise mensal torna-se mais evidente que há menos crédito e mais incumprimento em Fevereiro face ao primeiro mês do ano.

Vale a pena olhar com atenção para o crédito ao consumo. Porque a sua massificação e a multiplicação de produtos por parte de sociedades financeiras especializadas – que fazem tanto menos perguntas sobre os fins do empréstimo quanto mais aumentam as taxas de juros – pode estar a funcionar como um refúgio para obter financiamento adicional para pagar outras dívidas e evitar perder a casa que serve como garantia do crédito à habitação.

Estamos perante números que nos fazem pensar. Numa análise sectorial, as empresas de imobiliário e de construção destacam-se entre as que registam maiores dificuldades. Não estamos a ter um fenómeno de fim da bolha imobiliária à espanhola, simplesmente porque não tivemos bolha imobiliária na última meia década. Mas é a crise que nos cabe e, mesmo que seja mais suave, deixará feridos pelo caminho.

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