Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 06 de abril de 2016 às 19:25

O óbvio e o impossível 

Quem escolhe ignorar o óbvio está a produzir o impossível - que só pode servir para esconder as razões que levam a não aceitar o que o óbvio mostra.

A FRASE...

 

"Numa união monetária, reformas estruturais são essenciais para aumentar a flexibilidade e a competitividade, mas também para acautelar riscos de tendências recessivas."

 

IMF Executive Board, Third Post-Program Monitoring with Portugal, 1 de Abril de 2016

 

A ANÁLISE...

 

Quando uma organização internacional, especializada em programas de apoio económico em situações de crise, julga necessário chamar a atenção para o que deveria ser óbvio, é porque identifica uma persistente resistência dos responsáveis políticos por essa economia quando se trata de reconhecer o óbvio.

 

Numa união monetária, a variável de ajustamento é o emprego, referenciado aos custos unitários do trabalho, isto é, ao valor do salário ponderado pela produtividade do factor trabalho. Sem competitividade não há viabilidade das empresas e não haverá emprego. Mas haverá emigração, o que mostra que, noutra sociedade e noutras condições, os que aqui estão condenados ao desemprego encontram lá actividade produtiva competitiva.

 

O óbvio só é surpreendente ou paradoxal para quem se recusa a vê-lo. Devia ser óbvio que onde não houver capital também não haverá trabalho. Também devia ser óbvio que substituir capital por dívida entrega aos credores o poder de decidir sobre a vida e a morte da empresa e do emprego. Em regime de união monetária, sem emissão de moeda própria e sem os reguladores tradicionais da inflação, do juro e do câmbio, os confrontos entre o capital e o trabalho conduzem à destruição mútua assegurada: onde houve capital passou a haver dívida, onde houve trabalho passou a haver desemprego. E nem reduzindo o salário a zero se conseguirá obter um custo unitário de trabalho que justifique o investimento no equipamento para um posto de trabalho.

 

Quem escolhe ignorar o óbvio está a produzir o impossível - que só pode servir para esconder as razões que levam a não aceitar o que o óbvio mostra. Pode-se recusar a união monetária, ficando sem escala de mercado, sem capital e sem emprego. Não se pode é estar na união monetária e querer esconder o óbvio.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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