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José Diogo Madeira jdmadeira@netcabo.pt 02 de Março de 2005 às 13:59

O ocaso do Professor Marcelo

Marcelo cometeu o erro supremo - com receio de parecer que saltava do barco que é o seu - de participar na última campanha do PSD. Com que imparcialidade vai agora surgir na televisão, a zurzir nos ministros e nas políticas socialistas?

Há coisas que, assim de repente, deixam de fazer sentido. A prestação do Professor Marcelo, no seu novo programa na RTP1, estreado no último Domingo, foi uma sombra das suas melhores «performances» na TVI. Foi triste ver o Professor arrastar-se pelas óperas que passam na Antena 2 e pelo frio que consome os polícias no Aeroporto Sá Carneiro. O que é que isso nos interessa? O Professor Marcelo não era bem um comentador político - era um actor de primeiro plano no jogo político. Um crítico de pintura, não pinta. Um crítico de música, não toca. Um comentador de bola, não é futebolista. Mas o Professor Marcelo transcende-se quando pensa política e se imagina no meio do tabuleiro dos jogos que congemina. De certa forma, ele achava-se predestinado para uma grande carreira política. Por isso, tinha tanta piada vê-lo, entusiasmado, a envenenar o PSD, os governos PSD, a coligação com o PP, a picar o PS. Quando Rui Gomes da Silva pediu a intervenção da Alta Autoridade da Comunicação Social, para exigir o direito ao «contraditório», o País entusiasmou-se com o Professor. Porque era um «deles» a ousar a crítica ao Governo e ainda por cima, porque conseguiu embrulhar o Executivo numa história de perseguição à liberdade de imprensa. Agora que não há PSD, o Professor deixou de ter graça - as guerras entre Marques Mendes e Luís Filipe Menezes são um assunto irrelevante, que interessa muito pouco aos portugueses. O PSD é um partido sem graça até 2009. E o PP, sem Portas, extingue-se.

O outro caminho que o Professor pode seguir, o do ataque cerrado ao Governo PS, está também condenado: vindas de quem vêm, as críticas a Sócrates saberão sempre a perseguição política, provinda de um «barão» laranja meio ressabiado com o seu imprevisto destino. Marcelo cometeu o erro supremo - com receio de parecer que saltava do barco que é o seu - de participar na última campanha do PSD. Com que imparcialidade vai agora surgir na televisão, a zurzir nos ministros e nas políticas socialistas? Os quatro anos de governo socialista que o Professor tem de enfrentar equivalem a uma grande travessia de deserto. E isso ficará patente na forma como as audiências televisivas o acompanharão ao longo dos próximos meses. O Professor cometeu, nesta sua reaparição televisiva, um erro do mesmo tipo daquele que Santana Lopes foi acusado após as suas hesitações na última noite eleitoral - incapacidade de perceber que há sempre uma hora certa para sair do palco. Aquele momento raro em que o público tem o artista em ombros, em que o pano fecha com uma enorme ovação na plateia. Qualquer retorno depois desse momento, atira sempre uma carreira brilhante para uma triste gestão do seu declínio. O Professor, sempre tão analítico e radiante, esqueceu-se de acertar no seu próprio destino. Acontece aos melhores.

PS - As televisões têm mostrado filas de jovens amontoados frente às bilheteiras da FNAC e das estações de gasolina da BP, na ânsia de comprarem entradas para o concerto dos U2. A banda é boa. A motivação dos fãs também. A procura é muita. Mas estamos em 2005, Woodstock ficou lá atrás e o homem já colocou o pé na Lua. Não é razoável que, para se venderem uns milhares largos de bilhetes para um evento público, as pessoas ainda tenham que dormir ao relento - para mais numa noite particularmente fria - e esperar prostradas pelas ruas durante horas, senão mesmo dias. A FNAC, a BP e demais redes de vendas terão outras formas de vender os mesmíssimos bilhetes, sem sujeitarem as pessoas ao terceiro-mundismo a que temos assistido. Isto é apenas uma questão de gestão: podem distribuir senhas numéricas pelos interessados, podem vender por telefone, podem vender por Internet. Podem fazer como queiram, mas têm de saber que os consumidores, por mais jovens, modernos e radicais que possam parecer, têm de ser tratados como seres humanos e não como animais. Porque a impressão que fica é que quem vai comprar um livro à FNAC ou meter gasolina à BP, se arrisca a ser também tratado como um cão.

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