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Mário Negreiros 31 de Outubro de 2003 às 13:43

O Outono e os Tijolos Dourados

Num dia, a passear à beira-mar, de mangas curtas, em Oeiras. Dois dias depois, a almoçar no Marão, lareira acesa, neve lá fora. É Outono em Portugal.

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Num dia, a passear à beira-mar, de mangas curtas, em Oeiras. Dois dias depois, a almoçar no Marão, lareira acesa, neve lá fora. É Outono em Portugal.

De volta a Oeiras, escrevo-lhes em folha de papel posta sobre a mesa do restaurante e bar “Amarelo”, na areia da praia. À volta do Bugio, o mar espalha-se em chumbos, ouros, pratas, verdes e azuis. Quando a luz e o calor se tornam excessivos, uma nuvem vem se por entre mim e o Sol, e sai quando a luz e o calor voltam a ser desejados. É Outono em Portugal.

Não se queixem, compatriotas! Não se queixem porque até fica feio. Longe de conhecer sequer uma pequena parte do Mundo, afirmo-lhes que pode haver igual mas que não pode haver melhor clima do que este nosso. Aqui há estações - nenhuma delas demasiadamente rigorosa, mas todas bem definidas - e é Outono em Portugal.

As estações do ano – como a liberdade, a saúde e uma vasta lista de coisas aparentemente banais – só se revelam preciosas quando se vêem perdidas. Mais de 30 anos de Brasil ensinaram-me o valor das estações. Além dos espectáculos – como este mar multitonal ou a neve do Marão – as estações do ano dão-nos a percepção do tempo cíclico: nenhuma delas é eterna e todas se repetem.

A história da Cigarra e da Formiga é contada no Brasil. Faz sentido ao sul do país mas, à medida em que se vai subindo em direcção ao equador, passa a fazer cada vez menos e, quando se chega a cidades amazónicas como Manaus, Rio Branco ou Boa Vista, já não faz nenhum, absolutamente nenhum sentido. Conta a anedota que, quando o jesuíta tentou explicar ao índio o que era o trabalho, disse-lhe que era coisa que fazia suar mas que tinha que ser feita todos os dias para dignificar o homem. E o índio chamou a índia para testemunhar, diante do padre, que o índio, todos os dias, trabalhava... nela.

O que tem isso a ver com as estações, com a cigarra e com a formiga? Ora, o que dignifica a formiga é a previdência: acumula no Verão para ter no Inverno. Para quem não tem Verão nem Inverno o acúmulo não dignifica porque não faz sentido. O índio tem fome? Entra na mata (como quem entra no super-mercado) e colhe ou caça do que houver (no que se exige mais ciência e arte mas talvez menos paciência do que numa ida ao supermercado). E enquanto não voltar a ter fome, o único trabalho a que se obriga é aquele que o faz suar em cima (ou em baixo, sei lá...) da índia.

Se o índio não é cigarra (não se trata de imprevidência) nem formiga (também não é previdente), os europeus são ambos os bichos – mais para um ou para o outro lado, todos nós nos encaixamos nessa história que, quanto mais próxima do equador, menos sentido faz. E fomos nós, os europeus – e os norte-americanos, que também têm Inverno –, que inventámos o capitalismo, que, por sua vez, tornou o acúmulo um bem em si mesmo.

Na fronteira do Brasil com a Venezuela, os índios Yanomâmi vêm sendo envenenados pelo mercúrio usado na extracção do ouro dos seus rios. A maior parte do ouro que há no mundo não está em anéis, pulseiras ou dentes, mas em forma de barras, em cofres subterrâneos, sem outra função além da de lastro (que pode ser outra palavra para dizer “acúmulo”).

Pergunto-me se as nossas mães e avós não exageraram na dose de cigarras e formigas, se não viveremos sob a neura do acúmulo, se não será a formiga (uma neurótica, sem dúvida) o bicho que vai acabar por devorar os Yanomâmi... não, não me parece razoável o preço que se paga para acumular um monte de tijolos dourados que, ainda por cima, têm que ficar escondidos de toda a gente. Mas que é bonito o Outono em Portugal, isso é.

PS: E os carros continuam a acumular-se sobre os passeios, como se nós, bípedes, não existíssemos.

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