João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 15 de janeiro de 2014 às 00:01

O pacto de Hollande

As declarações de intenção de Hollande terão de passar pela prova da determinação e eficácia políticas à imagem da sua promessa de clarificar os imbróglios amorosos vindos a público.

 

Uma convergência política entre Paris e Berlim é, no entender de François Hollande, a forma de relançar a União Europeia depois de alegadamente ultrapassada a crise do euro, segundo afirmou o presidente francês em conferência de imprensa no Eliseu.

Hollande imagina reavivar de um duopólio de poder para a França retomar a iniciativa política numa Europa comunitária que pouco tem que ver com os equilíbrios anteriores à reunificação alemã e subestima a dimensão política da expansão ao Centro e Leste do continente, o distanciamento de Londres e da sua praça financeira e a crise de legitimidade das instituições da UE.

Sonhos de duopólio

Para renovar o duopólio de antanho Hollande propõe que Paris e Berlim optem pela harmonização fiscal para as empresas (já prometida em vão por Angela Merkel e Nicolas Sarkozy em 2010 quanto à taxação de lucros) e por maior e indefinida cooperação no sector da defesa (onde as divergências nacionais imperam conforme mostrou a falhada fusão entre a "EADS" e a "BAE Systems").

Um terceiro vector passa pela coordenação de uma alegada "transição energética" (mantendo a França a dependência do nuclear que representa 75% da produção de electricidade, enquanto a Alemanha fechará até 2022 as suas centrais atómicas) com a criação por iniciativa dos dois estados de uma grande entidade transnacional à imagem da "Airbus".

O presidente socialista deu como adquirida e funcional a união bancária, omitiu quaisquer propostas sobre mutualização parcial de dívida pública ou lançamento de obrigações europeias e ignorou os termos de uma reforma institucional para assegurar desejáveis regras comuns de governação económica e financeira da zona euro.

Hollande, ano e meio após a tomada de posse, admitiu que os resultados da recuperação francesa são "muito frágeis" e que a sua opção de agir sobre a oferta para aumentar a procura, por iniciativa e sob orientação do estado, é no essencial de índole socialista e social-democrata.

Recuperar a grandeza perdida

As linhas genéricas do "Pacto de Responsabilidade" aventado por Hollande passam por uma redução de custos laborais, reforma do regime fiscal, apesar da carga fiscal equivalente a 46% do PIB dever manter-se sem grande alteração até 2015, e simplificação administrativa.

Para além da redução de contribuições empresariais e de trabalhadores independentes para a segurança social, estimadas em cerca de 30 mil milhões de euros, Hollande deseja garantir um sistema de contrapartidas em que presumivelmente associações patronais se comprometam a determinadas metas de criação de emprego por sector económico.

A reforma do Estado e das políticas públicas, implicando descentralização de poderes, é um dos factores que permitirão até ao fim do mandato presidencial, em 2017, cortar 50 mil milhões de euros numa despesa pública que equivale a 57% do PIB, um recorde na zona euro.

Hollande afirmou temerariamente que tais cortes não irão afectar os orçamentos familiares, tendo, em contrapartida, evitado comprometer-se com uma redução de vulto da taxa de desemprego que ronda os 11% e que dificilmente diminuirá tendo em conta as previsões de crescimento da economia francesa na ordem de 1% para 2014.

A prova de choque

As promessas de Hollande terão de resistir ao choque das eleições europeias de Junho e, previamente à votação nas municipais de Março, e, essencialmente, aguardam clarificação quanto aos pormenores.

Ao fim e ao cabo, as declarações de intenção de Hollande terão de passar pela prova da determinação e eficácia políticas à imagem da sua promessa de clarificar os imbróglios amorosos vindos a público.

Em matéria de amores e vergonhas, Hollande, indignações hipócritas à parte, viu-se já obrigado a reconhecer que não faria qualquer sentido processar judicialmente a revista que revelou a triste figura de um presidente de capacete de moto na cabeça para se encontrar com uma amante num apartamento nas imediações do Eliseu.


Jornalista

barradas.joaocarlos@gmail.com

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