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O país das adversativas

As adversativas chegaram, na passada semana, ao panteão nacional, pela boca do Presidente da República. Tudo começou quando Cavaco Silva, dirigindo-se aos portugueses, disse que não ia marcar eleições antecipadas, mas queria um compromisso de salvação nacional capaz de resgatar o país da crise.

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As adversativas chegaram, na passada semana, ao panteão nacional, pela boca do Presidente da República. Tudo começou quando Cavaco Silva, dirigindo-se aos portugueses, disse que não ia marcar eleições antecipadas, mas queria um compromisso de salvação nacional capaz de resgatar o país da crise.


O Presidente da República propôs esta solução, mas os partidos e os lóbis torceram o nariz. Cavaco Silva é criticado por apontar este caminho, mas também o seria se tivesse optado por outro. O PS aceita um compromisso, mas não quer integrar um Governo de salvação nacional. António José Seguro aceita negociar, mas exige que não seja o primeiro-ministro a ditar os termos de um eventual compromisso.

Paulo Portas foi um dos fautores da recente crise política, mas diz agora que está disposto a pagar o preço de reputação, inspirando-se em Sá Carneiro: primeiro o país, depois o partido e só depois as circunstâncias pessoais.

Passos Coelho elogiou a contenção verbal do líder do PS durante o debate sobre o Estado da Nação de sexta-feira, mas disse que em matéria de conversações com a troika prefere a palavra "reajustar" em vez de "renegociar". Cavaco Silva quer um acordo "num prazo muito curto", mas não quantifica se "muito curto" quer dizer cinco ou 10 dias. E regressando ao Parlamento, fixe-se aqui o momento em que Passos Coelho disse que a "vivacidade do debate poderia ter contaminado o esforço" de diálogo, mas "a contenção prevaleceu no Governo e nos principais partidos da oposição."

Para enfatizar o peso da adversativa no Estado da Nação importa reter, a título de exemplo, o caso de Paulo Portas. O ministro dos Negócios Estrangeiros está demissionário, mas o primeiro-ministro não aceitou a sua demissão. E aqui surge outro "mas" fulcral, o de que compete ao Presidente da República aceitar a exoneração de Paulo Portas, mas apenas se Passos Coelho entregar esse pedido a Belém.

Ou seja, é possível que haja um compromisso entre os ditos partidos do arco da governação, mas também é de admitir que tal não venha a acontecer.

As adversativas são o adubo que faz florescer as meias medidas e um atalho que conduz Portugal directamente ao abismo. São a prova viva de que a procrastinação é a ideologia preferida dos políticos nacionais, mais preocupados com a sua sobrevivência do que com o futuro do país.

*Subdirector

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

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