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Carlos Bastardo 28 de Maio de 2012 às 23:30

O papão "default"

Com as dificuldades dos países do sul da Europa e da Irlanda, o conceito de "default", ou seja, a situação em que um país não consegue honrar os seus compromissos financeiros (juros e reembolso do capital), voltou a ganhar contornos, por vezes, exagerados.

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Com as dificuldades dos países do sul da Europa e da Irlanda, o conceito de "default", ou seja, a situação em que um país não consegue honrar os seus compromissos financeiros (juros e reembolso do capital), voltou a ganhar contornos, por vezes, exagerados.

O "default" de países não é de agora. Por exemplo, países que até há pouco tempo eram AAA de rating pela agência S&P, a Áustria e a França, já enfrentaram essa situação. A Áustria, em 1796, e a França, nos séculos XVI a XVIII, teve 8 situações. A própria Alemanha, na altura Prússia, teve um "default" em 1683. A nossa vizinha Espanha já enfrentou 12 situações de bancarrota externa e Portugal já teve 5 situações desse género e que tiveram um impacto de 24 anos. A terra de Sua Majestade, a Inglaterra, também não conseguiu evitar 3 falências (1340, 1472 e 1594).

A Grécia, desde 1800, tem estado uma boa parte do tempo em crise da dívida soberana, pelo que a situação actual só é novidade, pelo montante de dívida pública em causa. Hoje, a Grécia tem uma dívida pública de 165% do PIB e com um crescimento forte todos os anos. A ajuda financeira internacional e o recente perdão da dívida têm por objectivo reduzir, em 2020, o peso da dívida pública grega para 120% do PIB, o que se afigura uma tarefa árdua, para não dizer impossível, no actual contexto que o país vive.

Se analisarmos os países com maior dívida externa em valor absoluto, temos várias economias desenvolvidas em posições cimeiras: EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda, Espanha, Irlanda e Japão, entre outras. No entanto, em valor relativo (% do PIB), os países mais endividados são a Irlanda, Islândia, Reino Unido, Holanda, Hong Kong, Bélgica, Suíça e Portugal.

Portugal desde o 25 de Abril de 1974, está a viver o terceiro resgate. Em qualquer programa de ajuda financeira, a receita do FMI é sempre a mesma: a economia tem de contrair para se eliminarem certos desajustamentos. Só que nos anteriores processos, Portugal possuía uma variável que hoje não pode usar: a desvalorização da moeda. Hoje não há o escudo.

Sendo assim, o ajustamento económico tem de ser feito por via da diminuição do rendimento: baixa de salários e aumento de impostos.

Por isso, o processo está a ser doloroso, especialmente porque 3 anos de programa de ajustamento é um tempo demasiado curto para tentar emendar 20 anos de desvario.

Seria útil para o País que o processo de ajustamento económico fosse mais prolongado (5 a 6 anos). Os impactos negativos na economia seriam graduais e não bruscos como estão a ser e as reformas seriam mais pensadas e executadas num "timing" mais adequado.

Mesmo que se queira cumprir, "Roma e Pavia não se fizeram num dia". E estar a ajustar num ambiente económico global difícil, é extremamente complicado e parcialmente infrutífero.

Portugal deve tentar renegociar melhores condições, principalmente de tempo. Os recentes resultados das eleições gregas e francesas obrigaram finalmente os políticos europeus a pensar que só austeridade não resolve o problema da dívida. Se os políticos europeus não tomarem rapidamente decisões que tragam a confiança desejada, a pressão dos mercados sobre a dívida pública vai continuar, e a seguir à Grécia, as baterias estarão voltadas para Portugal e principalmente para Espanha.

A reestruturação da dívida pública portuguesa é um cenário possível segundo muitos analistas internacionais. E se a economia portuguesa contrair mais do que o previsto, e este é um cenário que não deve ser descartado, a probabilidade que tal ocorra aumenta, quer queiramos quer não.


Autor do livro Gestão de Activos Financeiros - "Back to Basis"

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