Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 01 de setembro de 2016 às 19:55

O presente contínuo

Quando hoje se fala de mudança aos mais novos, eles perguntam: mas qual mudança?

Quem se lembra do que fez na semana passada? E anteontem? Onde esteve, quando, a fazer quê?… Não é fácil. O passado foge-nos, a memória apaga-o, mas o futuro não é diferente. Quem planeia isto ou aquilo com amigos ou familiares para a semana, para daqui a 15 dias ou um mês? Sei lá onde é que estou daqui a 15 dias… exclamam uns e pensam outros…

 

As tecnologias de comunicação e informação continuam a mudar comportamentos e hábitos individuais e colectivos. Não se trata do que cada um quer, nem do que gosta mais ou gosta menos. Os novos media atuam antes disso. Ao afectar a percepção, os sentidos, a atenção, a memória e o raciocínio, a permanência da internet, dos computadores e dos telemóveis muda-nos substantivamente. O ambiente digital gera novos padrões de percepção, novas estruturas de atenção, novos modelos de pensamento, alterando a nossa vida independentemente de análises ou opiniões.

 

Analisar e planear é mais difícil hoje do que há uns vinte anos. Neste ponto da argumentação, geralmente, os especialistas dizem que o que se passa não é bom nem mau, que não somos diferentes do que éramos, mas sim que fazemos as coisas de outro modo, que temos outras possibilidades - tecnológicas, comunicacionais, culturais, científicas, etc. - e que vivemos de maneira diferente. Mas não é assim. De facto, estamos a mudar, substantivamente.

 

A quantidade esmagadora de informação que nos cerca, de estímulos constantes à nossa atenção, de apps, facebook, blogs, SMS, twitters, what's up, instagrams, mantem-nos envolvidos, imersos, numa hiper-realidade que não pára. Milhares de ecrãs, 24 horas por dia, anos atrás de anos, alteram definitivamente a percepção, a linguagem, o raciocínio e o modo de vida. São novos padrões comportamentais que emergem, bem visíveis no dia-a-dia dos mais novos, que chocam com o modo de pensar e actuar do mundo dos livros, das hierarquias especializadas e da sociedade industrial.

 

Quando hoje se fala de mudança aos mais novos, eles perguntam: mas qual mudança? Estamos já longe do quadro do conhecimento e da vida profissional em que muitos de nós se fizeram adultos, marcado pela lógica, pela relação de causa-efeito e pelo planeamento. Hoje na comunicação domina o instantâneo, o emocional, a multitarefa, a intuição e o improviso. Na era dos novos media a linearidade é um comportamento em queda face ao tudo ao mesmo tempo da intensidade da informação e comunicação que nos cerca. Há um regresso a processos de comunicação de culturas orais; a culturas em que o som e a imagem são os principais meios de comunicação, em detrimento da escrita. Os novos media, em si mesmo, são uma análise, um poder, são um ambiente absorvente, constante e hipnótico, um presente contínuo que nos cerca, tornando o passado irreal e o futuro imprevisível.

 

 

Quando hoje se fala de mudança aos mais novos, eles perguntam: mas qual mudança?

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa
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