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Michael Boskin 11 de Agosto de 2016 às 20:00

O problema com os políticos que querem ser historiadores

Muitos políticos continuam a fazer spin a factos mesmo depois de terem abandonado funções. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, disse uma vez que "a história será simpática comigo, porque pretendo escrevê-la".

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"A história não se repete, mas rima", gracejou Mark Twain. Por muitas gerações, os líderes políticos têm contribuído para dar crédito a esta observação, tentando moldar os seus legados, atribuindo-se o crédito daquilo que resultou e culpando os predecessores ou opositores políticos por aquilo que falhou.

 

Muitos políticos continuam a fazer spin a factos mesmo depois de terem abandonado funções. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, disse uma vez que "a história será simpática comigo, porque pretendo escrevê-la". E, na verdade, os vários volumes sobre a Segunda Guerra Mundial contêm não apenas algumas das suas frases mais memoráveis ("nunca tantos deveram tanto a tão poucos"); mas também as justificações para as suas acções durante a guerra.

 

Os escritos de Churchill podem ser tendenciosos, mas oferecem notável informação privilegiada e detalhes que não são imediatamente perceptíveis de memorandos e documentos oficiais, que são habitualmente incompletos e de estilo reservado. Como os historiadores sabem, existe uma grande pressão para recordar o passado da forma que os vencedores querem que seja recordado. Como disse a certa altura Napoleão Bonaparte, "a história é um conjunto de mentiras aceites de comum-acordo".

 

Hoje, é a vez de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, tentar definir o seu legado, enquanto a sua presidência se aproxima do fim e as atenções se voltam para a eleição do seu sucessor. E ele já tem estado ocupado. Durante a recente visita de Obama ao Japão para a cimeira do G7, por exemplo, ele tornou-se no primeiro presidente norte-americano em funções a visitar Hiroshima, devastada pelo ataque nuclear ordenado em 1945 pelo presidente Harry S. Truman por forma a evitar uma invasão terrestre e a acelerar o fim da Segunda Guerra Mundial. 

 

Obama tem também promovido os seus feitos económicos, reclamando ter prevenido outra Grande Depressão. Ele disse que a Lei de Recuperação Económica (Recovery Act) impediu a taxa de desemprego de subir até aos 30% - cinco pontos percentuais acima do pico da Grande Depressão.

 

Isto é um absurdo. Os próprios conselheiros de Obama estimaram que o seu pacote de estímulos preveniu um aumento do desemprego na ordem de um ponto percentual no pico do desemprego, não o crescimento de 20 pontos percentuais a que o presidente se referiu.

 

Obama não é o primeiro líder político a dedicar-se a hipérboles, mas mesmo segundo os padrões da era da internet, esta é uma mentira. Ele tem também reclamado com frequência que todos os economistas estão de acordo na constatação de que as suas políticas funcionaram. A verdade é que enquanto alguns concordam com as avaliações dos seus assessores, outros acreditam que os estímulos tiveram apenas um pequeno efeito, senão mesmo negativo.

 

É interessante que Obama sinta a necessidade, com os seus dias (de presidência) em contagem decrescente, de glorificar as suas acções. E será ainda mais interessante ver como usará a sua inteligência, eloquência e experiência depois da sua reforma. Os dois presidentes com os quais trabalhei mais de perto, Ronald Reagan e George W. Bush, deixaram, em grande medida, que outros falassem e escrevessem. Ambos pareceram confortáveis com aquilo que atingiram e com aquilo que deixaram por fazer; e os dois melhoraram o seu estatuto e popularidade com o decorrer do tempo.

 

Avaliações instantâneas a líderes políticos são usualmente modificadas, muitas vezes consideravelmente, pelas gerações subsequentes. Poucos presidentes viram os seus feitos tão elogiados por historiadores e jornalistas como Franklin Delano Roosevelt. Considero que FDR foi o melhor presidente do século XX devido à sua liderança durante a Segunda Guerra. Mas a maior parte dos economistas rejeita agora a tese de que o seu New Deal acabou com a Grande Depressão.

 

Na verdade, em 1938 o desemprego continuava acima de 17%. O amigo próximo de FDR, o secretário do Tesouro Henry Morgenthau Jr, lamentou que "depois de oito anos… nós [vamos] ter tanto desemprego como quando começámos… e uma enorme dívida, para agravar". Alguns economistas acreditam que os programas de FDR, ao elevarem os preços e os salários, foram contraprodutivos, impedindo os mercados de se equilibrarem e recuperarem. Hoje a maioria dos economistas acredita que foi apenas a massiva mobilização para a Segunda Guerra Mundial que acabou com a depressão.

 

Ao contrário de FDR, Truman foi inicialmente considerado um presidente medíocre, um merceeiro do Missouri que não passou do vice-presidente que sucedeu a FDR depois da sua morte. Truman quase perdeu as eleições de 1948 para o republicano Thomas Dewey. Em 1953, quando a ele sucedeu Dwight Eisenhower, poucos terão previsto que ele seria depois incluído entre os quase-grandes presidentes.

 

E mesmo assim foi Truman que acabou com a Segunda Guerra Mundial e supervisionou a segurança global e a arquitectura económica do pós-guerra: o Plano Marshall, a NATO, o Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. E foram as suas políticas que permitiram reconstruir as sociedades destruídas pela guerra e fazer dos derrotados Alemanha e Japão fortes aliados, em contraposição ao perpetrado pelo Tratado de Versalhes depois da Primeira Guerra Mundial. Além do mais, foi sob a liderança de Truman que foi dado o primeiro grande passo para a revolução americana pelos direitos civis com o fim da segregação no seio do exército.

 

Diz-se que pouco depois de o presidente Richard Nixon ter restabelecido relações com a China, o primeiro-ministro Zhou Enlai perguntou-lhe o que pensava da Revolução Francesa e ele respondeu que "é muito cedo para dizer". De forma equivalente, é ainda muito cedo para avaliar líderes tais como a chanceler alemã, Angela Merkel, e o ex-primeiro-ministro britânico, David Cameron. Apesar de ambos terem tido mandatos prometedores, cada um foi confrontado com enormes, senão existenciais, desafios: Merkel com a imigração do Médio Oriente e Cameron com a relação com a Europa.

 

Por vezes é clara a ligação entre as políticas de determinado líder e as condições do país durante o seu mandato. Não discordarei de um historiador que determine que a Venezuela foi eviscerada pelo populismo socialista e iliteracia económica do presidente Hugo Chávez.

 

Porém, no caso de outros importantes líderes – Xi Jinping da China, Narendra Modi da Índia, Mauricio Macri da Argentina, Enrique Peña Nieto do México – é ainda muito cedo. Eles ainda terão pela frente muitos desafios e serão julgados por aquilo que deixarão como legado aos seus sucessores (e pela forma como os seus sucessores lidarão com isso). A história é assim, caprichosa; os historiadores que a escrevem são ainda mais caprichosos.

 

Michael J. Boskin é professor de Economia na Universidade de Stanford e membro senior da Hoover Institution.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: David Santiago

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