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Sérgio Figueiredo 29 de Abril de 2005 às 13:59

O processo da vergonha

António Câmara era um professor universitário, dedicado à investigação como tantos outros. Mas, infelizmente, não era como os outros. E quando os avisou que estava a pensar tornar-se empresário, a reacção foi previsível: «Só pensas em ganhar dinheiro». So

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Sorte a dele, porque criou a empresa, começou a fazer jogos para telemóveis, ganha efectivamente bastante dinheiro e hoje é um daqueles casos de sucesso que nos fazem acreditar que o país consegue.

Azar o nosso, porque, pior que a inveja nacional, só mesmo a imbecilidade que reina no mundo académico nacional.

A Universidade deveria pertencer à ala mais dinâmica da sociedade. A Universidade representa, em princípio, o inconformismo. É o local que, por excelência, alimenta o confronto de ideias.

Mas aqui não. Na Academia portuguesa não há competição. Os professores que conheci há vinte anos estão sentados no mesmo sítio, muitos a «ensinarem» as mesmas matérias.

Não é assim só na minha escola. Nem em apenas uma ou duas. Nem é só em Economia e Gestão. Na verdade, não há um mercado de trabalho entre os professores universitários. Não rodam entre instituições. Não recrutam os melhores. Não os deixam sequer entrar. Pudera!

A maioria recusa sequer ser avaliada, nem pelos trabalhos que publica, quanto mais pelos projectos que empreende. Ninguém está sujeito a pressão de espécie alguma.

No MIT, lembra Câmara, faz-se uma distinção entre «consagrados» e «não-consagrados». Entre os primeiros há três tipos de gente: vencedores de um prémio Nobel, candidatos a um prémio Nobel ou alguém que cria uma empresa.

Os «não-consagrados», nos Estados Unidos, só recebem 40% do salário. Em Portugal chegam a reitores e presidentes dos conselhos directivos. Ainda por cima, sentindo asco daqueles impuros que se prostituem ao capitalismo e formam uma empresa.

Não é escusado dizer que há excepções. Aliás, dado o caldo de cultura reinante, é cada vez mais necessário falar delas. A Universidade do Minho e a Universidade de Aveiro são duas grandes e honrosas excepções na ligação ao mundo empresarial.

Há mais instituições «vivas», abertas, pró-activas. A Escola de Gestão do Porto é uma delas. As empresas que fazem inovação, procuram inovação, promovem inovação, não citam muitos mais exemplos. De flexibilidade dos dirigentes das escolas. Do empreendorismo dos estudantes.

Evidentemente que não há choque tecnológico que resolva isto. E, como é normal, não é o Processo de Bolonha, ontem aprovado em Conselho de Ministros, que desbloqueia este travão ao desenvolvimento do país.

Reformas curriculares, para simplificar, como é o caso, são bem-vindas. Mas estamos cansados de ver, na universidade como nos restantes níveis do sistema de ensino, os programas serem mudados, as disciplinas serem mudadas, os horários serem mudados – para o desastre ficar na mesma.

O engenheiro Sócrates está determinado em abanar os instalados. Não esqueça os professores que teve. Quando fizer o Orçamento para 2006.

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