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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 10 de Março de 2009 às 12:02

O que é um depósito a prazo?

Eis uma pergunta tão básica, mas tão básica, que não se admite que um aluno do 9º ano não saiba a resposta. No entanto, o seu professor talvez não a saiba. Nem o pai. Até o gestor de conta da família pode ter dúvidas.

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Eis uma pergunta tão básica, mas tão básica, que não se admite que um aluno do 9º ano não saiba a resposta. No entanto, o seu professor talvez não a saiba. Nem o pai. Até o gestor de conta da família pode ter dúvidas. A coisa está de tal maneira que o próprio Banco de Portugal abriu ontem uma consulta pública sobre o assunto. Pode-se perder dinheiro num depósito a prazo? Não. Mas perdeu-se tanto...

Perdeu-se porque a banca andou a vender produtos financeiros com publicidade enganosa: "Ganhe 10%!*", onde o asterisco é um "mas" que remete para cemitérios de informação. Exemplo: "Valor Super Rendimento, ganhe até 16%!*". Agora, o asterisco: 16% a dois anos (ou seja, 7,7% brutos ao ano, pouco mais de 6% líquidos); o dinheiro é dividido entre um depósito a prazo a taxa fixa de 5% brutos no primeiro ano; outro terço em fundos de risco moderado; e o último terço em dois fundos de mercados emergentes, em que o investidor ganha 70% da diferença entre a valorização desses dois fundos. Não se ria, o exemplo é verdadeiro. Aliás, chore: quem lá investiu perdeu dinheiro.

Os melhores bancos do País praticaram esta selvajaria publicitária, justificada em letrinhas miúdas. Os piores bancos foram mais longe, contratando vendedores desqualificados ou, no caso extremo do BPP, garantindo a lápis capitais que valem hoje menos que uma máquina de triturar papel.

A iliteracia financeira é um flagelo e é, na verdade, a única prevenção. Mas também tem as costas largas para o que foram abusos da engenharia financeira: a relação entre um banco e um cliente é fiduciária e fidúcia quer dizer confiança. Não devia ser necessário acrescentar asteriscos a "fiduciário"...

Ao abuso dos bancos sucedeu a sobre-regulamentação dos reguladores. CMVM e Banco de Portugal obrigam agora a tantas regras na publicidade de produtos financeiros que só falta mandar rotulá-los como ao tabaco: 30% da embalagem a avisar que "Investir pode prejudicar gravemente a sua saúde financeira e a dos que o rodeiam".

Os reguladores actuam bem, mas tarde e com pesos na consciência. Numa prelecção este fim-de-semana em Cardiff, o Arcebispo da Cantuária frisava que acusar a ganância dos banqueiros como origem da crise é fácil de mais. E é também colocar um bode à frente da expiação que todos devíamos fazer: os reguladores por omissão, os consumidores por pulsão gastadora. Somos todos culpados, disse.

Hoje, ninguém confia em ninguém. Os bancos não confiam nos bancos e não emprestam dinheiro entre si. Não confiam nos "ratings" das agências. Não confiam nos investidores institucionais e roem-se com operações de "short-selling" (mais uma: no dia em que o BCP afundou 7%, para o mínimo histórico, um dos fundos, que já estava curto, duplicou a posição!).

O que é, então, um depósito a prazo? É uma aplicação onde é impossível perder dinheiro, mesmo em casos de mobilização antecipada ou parcial. Se está indexado a índices ou é partilhado com fundos, não é um depósito a prazo, é um produto complexo. Palavra de governador.

Os clientes do Banco Privado aprenderam à sua custa o que não é um depósito a prazo. Antes que seja tarde, consulte o seu banco. Tem o seu dinheiro garantido? Eis uma pista: se lhe prometem muito mais que a inflação, ou é promoção de curto prazo ou corre riscos. Só confia segunda vez quem não foi enganado à primeira. Esta até um aluno do 9º ano sabe.

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