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José Martino 26 de Junho de 2014 às 00:01

O que esperar do Alqueva

O primeiro-ministro, Passos Coelho e a ministra da Agricultura, Assunção Cristas determinaram a conclusão das obras do projecto agrícola do Alqueva em 2015.

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Tudo o que diz respeito ao Alqueva assume proporções gigantescas. Para um pequeno país como Portugal, tal gigantismo devia traduzir-se numa enorme atenção mediática eficaz sobre o que aí se passa.

 

Os mais de 2.500 milhões de euros de investimento público, os 120 mil hectares de regadio à disposição das explorações agrícolas e do sector agro-industrial, os milhares de agricultores, de empresas e de associações que vão passar a ter de mudar de vida com a "revolução" que aí vem, devido à passagem de uma cultura de sequeiro para uma cultura de regadio, o melhor aproveitamento das disponibilidades hídricas ao dispor da produção, não parecem estimular o foco mediático nem o escrutínio da opinião pública.

 

Estamos a falar de investimento público, dinheiro dos contribuintes, numa altura em que ele é escasso e disponibilizado a preço de ouro. Não vejo da parte de muitos responsáveis políticos, a necessária preocupação com o futuro do Alqueva, de quem lá vive, trabalha e tem os seus negócios.

 

Para quem não sabe ou anda distraído, estamos a falar do maior reservatório de água da Europa e de um dos maiores projectos hidroagrícolas a nível europeu. O que temos a fazer para aproveitar todos os recursos que vão ser disponibilizados deve ser feito já.

 

Tenho-me deslocado diversas vezes à região do Alentejo. Tenho falado com produtores, com agricultores, com associações, com empresas. À pergunta, "como maximizar o potencial produtivo" que resultará do projecto do Alqueva, tem encontrado respostas vagas e imprecisas, bem como verifico que há muito que poderia ser feito na implementação de culturas de regadio e infelizmente, não está a ser realizado.

 

É preciso investir em informação sobre a melhor estratégia para rapidamente se passar do sequeiro ao regadio, colocar no terreno as culturas e agro-indústria mais rentáveis, divulgando-a através de seminários, visitas de estudo, workshops, etc,. junto dos interessados, sejam eles pessoas individuais ou colectivas. É preciso definir o plano estratégico para o regadio do Alqueva. Espero que sejam canalizados 3% do orçamento global da obra, qualquer coisa como 75 milhões de euros, para estes planos, assim como para estudos e demais incorpóreo.

 

É preciso inverter a lógica política vigente que se baseia em dar dinheiro a todos. Temos de ser mais selectivos, e alocar os recursos em projectos que promovam as economias de escala.

 

O Alqueva é essencial para que o nosso PIB agrícola, hoje abaixo dos 4%, possa alcançar os 10% do PIB nacional. Por outro lado, é imperativo da independência económica de Portugal colocar a agricultura a gerar valor acrescentado.

 

Ouço muita gente a falar sobre o Alqueva como se o turismo fosse o remédio santo para ultrapassar a nossa crise. Nada de mais errado. O turismo é importante, mas a nossa economia não deixará de ser "arcaica", como recentemente disse um "guru" da economia mundial, se não investir na agricultura e na agro-indústria.

 

A nossa agricultura tem de ser olhada como um negócio e não como um "hobby". Os empresários agrícolas, com perfil e vocação para assumir riscos, adquirir competências, dar valor acrescentado ao "made in" Portugal para entrar em novos mercados de exportação, na Ásia, na América Latina, etc., devem ser apoiados.

 

Uma política agrícola de "nova geração" deve obedecer a uma estratégia de longo prazo, que torne mais eficaz o modelo de ajudas públicas ao investimento, valorize o perfil empresarial do agricultor e o valor acrescentado das actividades.

 

Engenheiro e Consultor Agrícola

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